segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Recuo


     A luz esbate-se. Aparece imperceptível. Há um esforço quando essa luz se esbate. Quando se some. Mas não chega. Há para lá mais que o que se possa perceber.
     De desconfiados, ambos os pés que calço desviam-se sempre que essa luz me encontra. Os meus instintos segredam-me que ela é melhor quando imperceptível. Que se a vir demasiado perto, demasiado nítida, não serei mais eu.
     Eu creio no que me segredam.
     Mas ela brilha.
     Flameja.                
     E eu, que nunca pedi por luz que me iluminasse, que nunca quis perceber que chão pisam os pés que me calçam,… que nunca me fiz perceber por alguma luz: tento-me.
     E arrasto os meus pés em cinzas e carvão. E aquilo que foi ardido aproxima-se de algo que ainda arde. Aquecem-me os pés. Sinto os meus pés. Percebo o chão que piso.
     Recuo.
     Tenho medo.
     Nunca o calor procurara por mim.
     No escuro miro a luz de novo. E ela delineia-me. Ela dá-me tons e tonalidades. Ela mostra cores à sua volta. Ela despe tudo o que qualquer essência nunca havia alguma vez desnudado. Percebo o envolvente. Sinto-me quente. Estou perto dela. E não me aproximo mais. Ela começa-me a roubar o espaço, dando-me mais de um que desconheço.
     Contorno-a.
     Viro costas ao escuro e miro-a querer-me cada vez mais perto.
     Temo novamente.
     Estranho o escuro ser-me estranho.
     E volto de onde tinha vindo, deixando o calor apoderar-se de cada parte que exponho. Deixo que todos os meus átomos se agitem e se perturbem e me deixem desmedido e me avancem!...
     Que me avancem de uma vez por todas! Que me deixem abraçar o calor que desconheço! Que deixem que me queime! Que deixem que a luz de onde o calor sai, me cegue! Que o calor se aproveite do meu corpo e me endoideça!...
     Eu sei… sei.
     Sei que não verei mais. Sei que terei ainda mais frio. Sei que não vou saber. Sei que o chão me vai pisar e nada poderei fazer.
     Sei que vou recuar.


Tiago José Chaves
17/12/2012
21:24

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Manto


Os traços.
     São esses que teimam em não me abandonar o pensamento.
     A linha.
     Essa doce forma que percorre o teu ser, continuamente, numa sinfonia de simetrias de curvas irregulares que te desenham e que nunca a luz quererá abandonar, por mais que a sombra se ache tua por direito.
     E muito foi tua a ausência de luz quando te deixaste cobrir pelo manto negro de mágoa e dor que te deram sem pedido teu.
     Grotescos seres aqueles que o não souberam queimar quando to viram usar e possuir e fazer cair, nesse abismo de terra, humedecida pelas correntes que por lá passaram para que o fogo não pudesse pegar no que te cobriu.
     Diz-me: porque não te deixas cobrir de novo?
     A escuridão que nos aqueceu foi ausência de luzes diferentes. De semelhança infinita. E nessa dor julguei eu ver o que nos une. E na sombra julguei eu ter visto luz. E na tua sombra julguei eu ter sido o pavio que ardia incansavelmente, sem nunca aguardar por sopro que me terminasse.
     E aqueces-me.
     És fogo.
     Que me aquece, com medo de me queimar. E eu de ser queimado. Ainda mais que o que já fui. E fui. Acredita. Porque eu preciso.
     Preciso que acredites.
     Preciso que me tires e te tires do manto.
     Preciso que os queimes.
     Preciso que com o mesmo fogo que os queimaste, me aqueças a mim e a ti.
     Preciso que me queimes.



Tiago José Chaves
27/11/2012
19:56

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sombra


De ver estamos todos cansados. Fingimos querer ver mais, damos a entender um bem-estar que não o é, tentamos vender sorrisos que têm tanto de belos como de vazios.
     Esta constante partilha torna-se cansativa e recorre-se à futilidade. Ao acessível, alcançável, algo que nos não faça despender demasiado tempo.
     De todo esse jogo de ganhar e perder algo bom e mau e tudo quanto se possa adjectivar positiva ou negativamente, nada sobra para ninguém e de mão abanadas cairemos e seremos escondidos pela terra.
     Mas tentamos compreender. Para possuir. Para ter e mexer e virar e revirar.
     Continuamos a manusear o objecto que nos dá o jogo do qual ninguém mais ganha ou perde. Nem as regras sabemos. Nem por elas nos ralamos. Para quê?
     “O jogo”.
     A constante tentativa de percepção do que nos rodeia. De quem nos rodeia, no cerne de toda a pretensão.
     Esventramos toda a verdade oculta para alcançar o máximo de conhecimento. Mas é insaciável. Tudo é infindavelmente complexo e desejável. Tudo nos espicaça para conhecer mais. Mas nada sabemos. Tudo queremos saber, por nada há esforço.
     Quero-vos perceber.
     Quero-vos esventrar a cinzenta.
     Quero-me matar convosco.
     Tanto que nos tentamos perceber. Tanto que a partilha se dá e se vende sem querer, sem se pedir. E não percebemos. Não queremos perceber.
     Não olhamos para o centro dos palmos das nossas mãos. Não queremos entender que temos algo connosco e não há um mínimo de esforço para o gosto de se ter.
     Olhamos tanto para os palmos dos outros.
     Queremos tanto que o centro dos nossos seja como os deles.
     E aí há esforço.  
     Esforçamo-nos para os perceber. E conseguimos. Mas tão superficialmente. Tão relativamente certa que é a nossa percepção. Tal a nossa ignorância.
     Debrucem-se sobre o rio.
     Deixem que o sol vos bata nas costas.
     Deixem que se perceba a vossa sombra.
     Deixem-se ver para além dela.
     Aí colocarei a mão no vosso ombro. Aí entendereis o porquê do silêncio das palavras. Aí vereis que tudo isto é não mais que uma relativa percepção da sinfonia dissonante, extremamente harmoniosa. Que todo o ruído faz de si algo. Que tudo se torna útil.
Que tudo é ridiculamente perfeito.


Tiago José Chaves
07/12/2012
10:50

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

De olhos postos


     Nunca olhei devidamente para nada. Talvez porque nada tivera olhado devidamente para mim.
     Nunca olhei para cima. Nem nunca quis ver para baixo, tal o medo do voo e da queda que via repetirem-se na constante inquietação do meu pensamento.
     Mas voei. E caí.
     E tornaria a voar, mesmo sabendo que iria cair de novo. Porque me sei erguer. Porque me ensinei a fazê-lo.
     Memórias.
     Essas que teimam sê-lo.
     Essas que se unem ao sentimento como um elo da corrente que nunca me quis largar. Mas nunca me senti acorrentado. Nem nunca vi a corrente. E ela mesmo diante de mim, a agarrar-me e eu sem me deixar ir, com medo de cair. E a queda tanto eu queria para mim.
     Mesmo ensanguentado, mesmo ferido e me vindo sangue que nem meu era, ergui-me. Mesmo chorando e as lágrimas não me saberem às minhas, soube sorrir. Mesmo sofrendo e a dor não ter sido minha, soube voar.
     E vou saber olhar para cima.
     E vou saber olhar para baixo.
     E vou saber se fui olhado devidamente.
     E vou saber olhar.


Tiago José Chaves
27/11/2012
19:03

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Água e Farinha


     E isto dá as reviravoltas que tem a dar. E embrulha-se mais na massa de que é feita, ganhando mais densidade e resistência a algo que poderia ser útil para a não formação dessa mesma densidade embrulhada no que é feita e nem sequer existir.
     E é assim, confusa, que toda ela se torna a embrulhar, deixando de fazer qualquer sentido, querendo nós dar-lhe sentido. Quase como se tivesse vida própria. Quase como se ela mesma se quisesse tornar auto-suficiente. E nós damos-lhe mais farinha para engrossar, de quando em quando um pouco de água para não ser pó. E ela cresce, avoluma-se, ocupa um espaço maior. Quando nem espaço nós temos para a sustentar. E cada um a puxa para seu lado, conforme mais lhe convém. Cada um a estica e tira bocados, metendo mais água e farinha para fazer a sua própria e ter um gigante disso mesmo.
     Conveniência da possessão ridícula que um dia tive o prazer de ter. Enfim, catraio que era. Não conseguia dominar na totalidade aquilo que me foi atribuído. E eu retribuo a dádiva, dando-lhe bom uso agora que tenho alguma visão do que é tê-la.
     Deitei a outra posse fora. Não me aprazia. Ganhei-lhe ódio. Ganhei ódio ao que eu era.
     Por vezes vejo-vos a não conseguirem arrastar o vosso gigante, obeso, imensurável, tal a quantidade de farinha que lhe pusestes. E ignorante caminho eu, na vossa direcção, a fim de vos ajudar a arrastá-lo mais um pouco. Mas sei que não devo cair na tentação de tirar um pedaço dele. Ele é vosso. Não meu. Já tive um e perdi o meu sustento para lhe dar a ele.
     Admira-me, como também me deixa de admirar, como conseguis ainda deixar-vos ser tapada a visão com tamanho monte de merda, com tamanha imensidão de matéria insignificante até para o mais insignificante dos seres. Como podereis sequer olhar para tal, puro e simplesmente porque vos cobre a dianteira? Não sabeis vós que haveis deixado a retaguarda destapada? Não percebeis vós isso?
     É mentira.
     Sois mentira. Envolveis-vos mais nela. E meteis-lhe mais um pouco dela. Para que ela seja cada vez mais ela. Para que não saibam mais o que é serem vocês. Para que não distingam nada que vos encontre à frente. Porque não a sabeis contornar e deixá-la atrás, nas vossas costas, para que os vossos olhos sejam vistos e sejam lidos e sejam confiados. Para que tudo se torne um pouco mais real, para além da realidade obesa que construístes.
     Porquê?
     Porquê?
     Porque me põem no meio disso tudo? Porque é que me sinto como miolo de pão cozido num forno onde tantos outros se deixaram queimar?
     Porquê?
     Porque é que me deixo comer pelos vossos gigantes, pelo atroz que sois, pelo incorrecto que sois?
     Porque me mentem?
     Porque se mentem?
     Desisto-vos.
    
     Tiago José Chaves
21/11/2012
22:12

domingo, 18 de novembro de 2012

Círculo


     Um cansaço repentino invade a minha quietude.
     Sinto frio e ligeira mas dolorosa dormência em cada músculo meu. E toco-me, incrédulo, como há muito me não era possível fazer.
     Sinto o meu corpo, finalmente.
     Tudo permanece como deixei. Mas parece tudo fora do lugar. Parece tudo descoordenado, dessintonizado, desigual, confuso. 
     Não me questiono mais. Levanto-me.
     Dirijo-me ao local de onde a casca sai pura, limpa e aceitável. E torno a minha pura, limpa e aceitável.
     Ainda a cambalear na dormência física que me fora ligeiramente aquecida pelo líquido abundante, relevante, mas menosprezado, tapo a casca com panos com feitios, cheios de simetrias e assimetrias em perfeita concordância, fazendo com que ao olhar não se tornem indiferentes.
     Estou pronto.
     Estou aceso como vós todos, luzes diurnas.
     Alinho-me na ordem pré-feita para que não seja destacado do comum e me alertem e punam. Da linha não saio e dou sinais de que me desloco e que irei, ordeira e regradamente, encaminhar-me para o meu local de ascensão vital.
     E chego lá. Atempadamente, como bom cão que sou. E aguardo que me olhem de esguelha, que nem vadio a passar. Embora de vadio só queira ter a mente. Mas não posso. Tenho ordem em mim.
     O tempo está ainda mal desperto em mim e já me pressionei para o não questionar ou me impor. Esse que usa e abusa de mim. Esse que quando esqueço me apraz e quando lembro me encolhe e enruga.
     No miolo deste imundo sítio abano o topo da minha casca e rasgo em mim um sorriso amarelo à abundância de cascas polidas que por mim passam, sem se aperceberem da irrelevância que me assumem. E sorrisos amarelos tenho eu de volta.
     De novo, a perfeita sintonia.
     Dou de mim, arranco de mim e dos outros, para me dar e te dar. E olho e oiço e rabisco para poder continuar a de mim dar e a arrancar e a lhes dar e te dar.
     Somos de uns para outros. Para uns mais seremos que para outros. De uns mais tiraremos e a outros mais daremos. Em proporção errada de escolhas erradas que nos tornam um constante erro. E se lhes não dermos, se de nós não arrancarmos, se de vós e deles não tirarmos, eles vão salivar, famintos, impacientes. Dá-lhes esse naco de carne de papel. Aprá-los.
     Chegou ao fim.
     Retorno por onde vim. Ordeiramente.
     Recolho-me e retiro os panos balançados e simétricos e belos. Dispo a noção de casca que vesti durante a dormência.
     Encolho-me. Dos medos. De tudo isto.
     Cubro-me.
     Aguardo.

     Tiago José Chaves
14/11/2012
14:15

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Credes

Acordais sobre ela.
     Agis sobre ela.
     Dormis sobre ela.
     Respirais sobre ela.
     A constante forma de estar que nunca vos deixa recuar, embora hajam tantos tropeços pelo meio desse caminho que nem eu sequer posso ignorar.
     Não sois, mas pareceis, ruminantes de ideias e pensamentos e milagres e acontecimentos.
     Mastigai-os bem.
     Deleitem-se nisso. Na “verdade”. Ele disse-vos tudo, porém não O ouviram. Ele mostra-vos tudo, porém não se mostra. Ele dá-vos tudo, no entanto procurais. Ele tocou-vos à nascença, porém sofreis e fazeis sofrer na continuidade de atrocidades que tentais incutir uns aos outros.
     Passai-lhe um pano humedecido de água quente em cima. Do frio vos salvais.
     Molhai-vos em água limpa e fresca. Do calor vos salvais.
     E é assim, desde sempre, para que uma base nos pés exista. Para que vos seja possível dar algo aos outros. Para que pareça que não há indiferença. Para serem perfeitos ou perto disso.
     Palavras são doces, são amargas. São mentira e verdade. Palavras são luz e sombra, são fome e fartura, são sede e embriaguez.
Drogam-nos.
Confundem-nos.
Conduzem-nos.
Alinham-nos os olhos para onde bem entenderem.
Palavras são tão facilmente cruéis e amáveis.
Mas entendo quando as ouço. Entendo sempre, bem ou mal. Mas sei que estou certo ou errado. Sei que posso, e não, cair.
Vós credes, piamente, nalgo. Algo são palavras. Algo são esperanças. Algo é o que vos mantém de pé. E não interessa o que vos digam: é verdade. E não incomoda a mentira, tal a força que usais para agarrar a verdade que ela vos dá para a mão.
De verdade vos poderia presentear infindavelmente, exaustivamente, como bom dono dela que sou. Assim como vocês, maravilhas, iluminados, sombras, me dariam não mais que mentiras, como donos bons de verdades vossas que sois.  
Pouco mais ou menos somos uns em relação aos outros, mas cheiramo-nos à légua, encontramo-nos, observamo-nos, tocamo-nos, partilhamo-nos, testamo-nos, questionamo-nos, ignoramo-nos, exaltamo-nos, desentendemo-nos. Findamo-nos.
O nosso percurso choca, porque começou sem pedirmos. Porque “somos”, sem termos tido voto.
E são-nos ditas verdades e mentiras. Minhas e tuas. Ou só minhas e só tuas.
Mas deleitamo-nos de novo nelas. Vezes sem conta.
Afinal, somos a nossa crença.

    

Tiago José Chaves
06/11/2012
09:45

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vejo-me

Mexeis-vos e remexeis-vos na inocência de quem está ciente de que acontece no envolvente e tocais e puxais e empurrais e sonorizais e ouvis e engolis e cuspis e olhais e esqueceis do que se lembram.

     Sois uma fábrica de produção em massa de toda a merda que sabeis fazer e acumular no vosso encéfalo.
     E correis ofegantes na constante tentativa de fuga de ser e crer na luz que vos faz sombra. E expressais ânimo sobre o desânimo e desilusão na ilusão. E correis mais um pouco, como cães aos quais lhes foi batido o pé.
     E tapais e descobris e vendais e desvendais todo e qualquer mistério por detrás de tudo e nada para fugirdes mais um pouco do que foram, são e serão, durante qualquer percurso existido, existente e a existir.
     E esfriais no quente quando vos cobrem de calor gélido, com mantas e cobertores feitos de sonhos que supostamente aqueceriam o ínfimo mental vosso mas que foi mais que menos de escuridão.
     E a sombra assombra e pena-vos e faz-vos correr ainda mais, como nunca alguma presa havia feito do caçador de tiro pronto.
     E escorregais em terreno seco com os pés humedecidos da árdua e cansativa fuga que vós próprios criastes. Como se de uma colina tivessem, vós próprios, empurrado um pedregulho que vos persegue até ao fundo, insistindo em não surgir.
     E esquematizais e calculais a natureza que vos fez e que se arrepende de vos ter feito os carrascos sedentos de sangue que sois, de cravo ao peito e lâmina na mão.
     E estais prontos para tudo o que venha testar a vossa dualidade que assenta no bom e no mau, naquilo que não sabeis distinguir nem tão pouco equilibrar.
     E mirais.
     E estranhais.
     E entranhais.
     E vejo-me.


     Tiago José Chaves
31/10/2012
10:25

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sois

       Quem sou? Como sou? Porque sou? De quem sou? Quando o sou? Para que sou?
     Meras questões cujas respostas sei que são cada vez mais de uma subjectividade tão extrema como qualquer outra tentativa de resposta que se tente alcançar.
      A tudo o que estamos expostos, por tudo, isso que exerce em nós uma leveza de pressão incalculável, docemente nos empurrando para baixo e subjugando-nos e submetendo-nos a tudo e todos os outros, deixando-nos esculpir e polir sem fim,… somos quem somos. Sou quem conseguem ver. Sois quem sois. Sois quem vos vejo.
       Somos?                 
      Todo o resto não passa de um mero enfeite para que as atenções se foquem em vós, nem que seja por uns meros segundos, infinitamente longos. Todo o olhar que não vos consiga evitar submeteu-se a uma análise que tem tanto de longamente indiferente quanto de breve incómodo.
       E ainda assim olhas.
     Admira-me como sois capazes de habitar nessa constante submissão que é o olhar ligeiro de pessoas que atendem a uma categoria, uma posição, um estatuto, breve e certamente irrelevante a longo prazo para a vossa subsistência mental, tornando-se tanto quanto todos nós.
      Ainda assim, hierarquizais.
     Gostais de colocar nos diferentes degraus da longa escadaria que guia, a vós, todos os intervenientes no tempo que vos é cedido. Cães de guarda tendes, em todos e cada degrau dessa mesma honorável subida de nível, para que ninguém trespasse o limite que lhes diz respeito.
     Sois impenetráveis, inalcançáveis, imensuráveis, impensáveis.
     Sois foleiros.
     Julgais pura e única essa vossa noção de conquista que os outros devem igualmente possuir para quebrar a castidade encefálica que tanto prezais e, aquando o seu alcance, nada mais que um vazio é compreendido. Em vós.
     Acordo com conquistas por conquistar.
     Deito-me assim.
     A noção infindável de que não terei, assim como vós não tereis, algo realmente palpável. Mas vamos apalpando, por aí, conforme nos pudermos agachar e por quanto tempo os nossos olhos puderem cerrar-se a tudo isso que nos constitui.
     Sois tão perfeitos.


Tiago José Chaves
29/10/2012
14:35

domingo, 28 de outubro de 2012

Doce



Será que vais lá estar enquanto eu esperar por ti?
     Será que vou conseguir seguir o caminho sem tu teres saído?
     Irei conseguir seguir, mesmo tendo tu já saído?
Esse sítio que te prende, que te põe rédeas à tua liberdade e sanidade, que te rouba a ti mesma e que te faz ser leviana quanto aos teus actos.
     Eu sempre aqui estive, desde o dia em que te conheci. Sempre estive certo, desde que te ouvi, desde que te pude contar como sou e como te vejo, desde que houve compreensão quanto à possibilidade daquilo que somos, que era de ti que eu fugia por saber que um dia me ias parar e colocar dentro de uma caixa de cartão perfurada, que nem cachorro abandonado, e que resistência eu não ofereceria, tal o agrado de ter sentir a tua mão leve tocar-me, empoeirado, imundo, constantemente, no corpo e resto.
     Tento controlar a respiração de cada vez que ouço passos na minha direcção, de cada vez que o ar se movimenta neste sítio morto, onde nem almas penadas se atrevem a entrar.
     Dentro de mim.
     Em mim.
     Dentro de ti.
     Em ti.
     Cada canto que preenche a minha cápsula de memórias e remorsos e sentimentos sentidos, alimentados pela cruel esperança de quem aguarda por algo ou alguém que é sabido nem sombra se vir, renasce. Em vão.
     Doces palavras. Doces cantos de lábios que me invadem o íntimo sem deixarem ponta restante onde me possa guiar para o lugar onde me deixei.
     Crueldade e frieza possuis para em tal forma me teres deixado.
     Bela.
     Pura.
     Inalcançável.
     Choro cada lágrima armazenada pelos cantos dos meus olhos por te ver e não estares aqui.
     Canto até que doa, para nada e ninguém, esperando que oiças.
     Alimento a minha sabedoria sem que saibas, para que um dia possas saber.
     Arrasto a caneta no papel para que leias e vejas e sintas e chores e rias e corras e grites e saltes e fujas e agarres e soltes e pares. Duma vez, que pares.
     Mas continua.
     Mas vê-me.
Mas ouve-me.
Mas aprende-me.
Mas lê-me.
Sente-me.
Chora-me.
Ri-me.
Corre-me.
Grita-me.
Salta-me.
Foge-me.
Agarra-me.
Solta-me.
Pára-me.

Tiago José Chaves
28/10/2012
2:00



                

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tudo


E se tudo o que se está a passar, passa de vez?
     E se todo o esforço, toda a gota de suor derramada, toda a lágrima enxuta com as costas da mão, foram em vão?
     E se cada noite mal dormida, se cada dia mal acordado, pudesse ter sido de repouso?
     E se tudo o que usamos como conhecimento, se tudo o que nos rodeia, se tudo o que nos parece de uma solidez inigualável, é tão fictício quanto nós conseguimos ser?
E se tu não existisses?        
     E se nós deixássemos isto?
     E se tudo findasse?
     E se o princípio e o fim nunca existiram?
     Se passar de vez, levantar-nos-emos.
     Se todo o esforço, todo o suor, todas as lágrimas forem em vão, esforçar-nos-emos ainda mais. Suaremos ainda mais. Choraremos ainda mais.
     Se noites mal dormidas e dias mal acordados puderem ser de repouso, nós não vamos adormecer. Nós não vamos acordar.
     Se tudo quanto conhecemos e nos rodeia não existir, nós faremos com que exista.
     Se tu não existisses, eu criar-te-ia.
     Se nós deixássemos tudo, eu procurava o todo de volta.
     Se tudo findasse, eu recomeçaria o jogo.
     Se nada principiasse nem acabasse, não haveria um “nós”.


     Tiago José Chaves
24/10/2012
21:13

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mergulho


     Apanhaste-me, enquanto nem me conseguia ver.
     Agarraste-me, e estava eu tão perto.
     Seguraste-me, quando a queda me parecia infindável.
     Não te apercebeste, talvez, de que o fundo para mim me parecia cada vez mais o único lugar onde poderia assentar os pés. Talvez nem te tenhas apercebido, como eu, que quando lá batesse, pouco de mim sobraria.
     Se as palavras que escrevo significassem uma ínfima parte do que eu senti, eu acreditaria em mentiras. E tão envolto nelas estive!... Tanto essa teia me enrolou e me aconchegou no constante sufoco que já nem me incomodava.
     Como podes tu ter acontecido?
     Como pode o tempo ter calculado tão minuciosamente o encontro que me tatua as palavras entre os dedos das mãos?
     Quando, em que circunstâncias, de que forma podes ter sido tu, de um universo completamente paralelo ao que me espelha, que me puxaste com a força e garra de quem realmente acredita?
     Talvez não saibas o que fizeste. Nem como fizeste. Nem sequer se fizeste. Mas eu senti a tua mão em mim. Senti a força mudar de direcção. Ouvi-te puxar e gemer. Agarrar-me a tremer.
     Temos tantos medos.
     Já tivemos muitos mais.
     Perturba-nos o medo de termos medo novamente.
     Magoa-me tão docemente saber que existes, que me soubeste tocar. Que soubeste cuidar de mim. Melhor e mais rápido que alguém alguma vez houvera feito. Sinto-te em mim. Sinto-te dentro de mim.
     Puxei-te.
     Agarrei-te.
     Segurei-te.


Tiago José Chaves
19/10/2012
14:12

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Heróis


Sobe.
Sobe só mais um pouco.
Estás cada vez mais alto. Mais perto.
Que sabor tão distinguível do comum mediano nível. Tudo o que ficou para trás são apenas histórias a contar. Que bravos sois!
Ainda mais alto chegais!
Tudo o que deixaram para trás será esquecido. Tudo o que foram, a forma como conseguiram tornar-se no que são, aquilo que os outros eram e passaram a ser para vós, as prioridades e a relevância delas: Secundárias. De pouco apreço vosso. De fácil esquecimento.
Falta-vos a essência do que vos levou a escalar onde vos encontrais: Compreensão.
Já foi tempo de se esforçarem para compreender o que vos rodeia. Já não há tempo para compreenderem o que quer que seja. Ninguém necessita da vossa compreensão.
Quão medíocres sois. Quão ridículos pareceis, nesse cadeirão confortável no qual vos sentais hoje, de glórias imundas, de submissão forçada aos mais fracos.
Falais vós de necessidade? É necessário?
Ditais ordens, formulais regras e organizações. Falta de controlo: algo que não vos falta. As massas só vos comovem quando guiadas pela vossa liderança.
Estais mais alto que o que julgais!
Fomos nós que aí vos pusemos. E aí vos deixámos, como loiça cara no móvel, exposta aos olhos de todos.
Temos tanto de podre como vós. Somos cada vez mais ocos. O nosso vazio foi feito por todos vós, que comandais o excesso. Que exerceis pressão para aprendizagem. De novo, superficial. De novo, sinto-nos como marionetas.
Somos não mais que farrapos torcidos e amarrotados de tanto nos ser sugado o suor. A nossa passagem, as nossas pegadas, as nossas histórias: irrelevantes. Tornam-se cada vez mais facilmente consumíveis. Imediato reconhecimento e fácil esquecimento.
Não tenho medo. Tenho pena.
Vós que estais alto, que estiveram onde me encontro, não se lembram?
Já não anseio a vossa queda. Isso consumia-me tempo.
Já não conto com ascensões.
Não vale de nada. Cabemos todos aqui, de uma forma ou de outra. Acabaremos da mesma forma.
Que vos batam o pé. Que o tempo vos encontre.
Fujam, fujam!


Tiago José Chaves
17/10/2012
20:14

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Deixem-me...


Se pudesse, metia-me lá. Sem pestanejar.
     A superfície iluminada por essa fonte natural ofusca-me a visão, fragiliza-me, expõe-me. E eu não gosto de estar exposto. Gosto do escuro, do frio, de sentir que procuro calor e o não encontro. Gosto do limiar entre a sanidade e a loucura. Demasiado de um dos dois torna-se irrelevante para a minha existência e eu gosto de ser perturbado. Gosto que me perturbem.
     Não. Não gosto.
Deixem-me em paz! Não vos incomodei, porque mo fazeis? Aberrações! Seres repugnantes! Deixem-me!
     Não chega depender de vós, de convivência, de ajustes aqui e ali, de apertos de mão com tanto de respeito como de dúvida, de beijos em rostos que desconheço, de palavras trocadas sem vontade, de tudo isso que tanto necessitamos, e ainda me têm que incomodar mais? Sois assim tão estúpidos?
     Eu fervo por dentro com a vontade louca de vos suprimir completamente, de vos eliminar de qualquer canto onde apareçam! Vós criais em mim uma pressão inexplicável, que me deixa sem forma de me expressar, que me deixa sem ar para viver, que me deixa sem vontade de viver…
     Se ao me verem perturbado, depois de tanta explicação que vos tenho dado, depois de tanto de mim vos ter mostrado, ainda vindes ter comigo, como poderei eu estar bem? Como poderei eu respeitar os seres esculpidos e polidos que sois quando não respeitam o bruto que sou?
     SOU EU!
     …
     Deixem-me.

Tiago José Chaves
15/10/2012
23:28
                

                

sábado, 6 de outubro de 2012

Mosquitos


    Agarrados, constantemente, com um medo enorme da queda. A queda no buraco que vós próprios trataram de cavar.
     Inúteis. Não passam de um mero ser que vagueia no tempo e no espaço, sem saber bem quando e por onde passaram. Não sabem ao certo sequer se chegaram a vaguear.
     Completa-vos toda a faceta fácil, toda a página desdobrável e manejável. Completa-vos o que vos dão para comer, o que vos mandam ser, se é que sabem que “são”. Estou tão enojado com a vossa simplicidade!
     Vocês ecoam no meu encéfalo, como um mosquito de noite que teima em querer ferrar. De mim sugam o sangue que me corre nas veias e deixam marca para me coçar e fazer ferida, exposta a todo o tipo de malefícios que possam existir. É disso que se trata: deixarem em mim uma ferida exposta com um acto mínimo vosso. É do mínimo dos mínimos que me retirais que vos fartais.
     É do meu sangue doce que vocês fartam a vossa necessidade. É fartos que vós gostais de permanecer, noite e dia, sem término, num ciclo vicioso que me inclui cada vez mais.
Sou não mais que vós, sou tão mais que nada.
     Cavo o meu próprio buraco onde me escondo e perco noção de tempo, onde a luz não penetra, onde alimenta a minha loucura. Louco prefiro ser, a tornar-me cada vez mais um cão esfaimado como vós.
      Se assim é, porque não haveria de ser? Se me distingo como vocês tanto fazem a tudo e todos, quando muitas vezes sois indistinguíveis, há falha?
Há erro?                                    
Há loucura?
Há narcisismo?
     Há.
Somos tudo.
Não somos nada.  



Tiago José Chaves
07/10/12
01:48



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Indiferença


Nem este líquido salgado que me percorre o rosto reconhece a minha dor. Nem sequer a minha dor reconhece o meu esforço. Talvez o meu esforço também seja incapaz de reconhecer algo de humanamente correcto e saudável em mim.
Sinto-me cada vez mais perto da base inferior. Sinto-me cada vez mais pesado com o fulgor deste turbilhão de sentimentos em mim. Nem sei se posso chamar “sentir” a tudo isto que me envolve, visto já não conseguir sequer distinguir cada acontecimento.
Por mais que lave o meu rosto, por mais que esfregue as mãos uma na outra, a lama que envolveu o meu corpo torna-se cada vez mais densa. Tudo o que de imundo existe encontra-se em mim. Sou não mais que uma poça lamacenta gerada por esse efeito que vós causais. Sou não mais que o fruto repugnante das vossas palavras desmedidas e actos sem cálculo. Sou parte maior e constante do vosso erro, que me aquece cada vez mais e me afoga neste mar de sofrimento.
Comer deixou de fazer qualquer sentido. Trata-se apenas de um mero factor de sobrevivência. Tudo o que ingiro foi fruto de trabalho árduo vosso e da nossa Mãe. E ela que tanto nos dá, e nós que tanto lhe tiramos. Temos tanto apreço por ela como por nós mesmos. E falais vós de amor? E medis vós erros e calamidades e inteligência?
Ignorantes.
Não me vale de nada sofrer tanto quando os meus cinco sentidos são perfurados pela vossa imunda sabedoria. Mas sofro, porque me está entranhada.
Admirais-vos se vos digo que vos repugno? Exclamais, de espanto, se vos digo que vos amo a todos por igual? Se me fazeis sofrer, porque não poderei eu sentir por vós o tão valorizado, complicado e incompreendido Amor?
Tudo que vos digo, tudo o que ouvem, tudo o que cheiram, tudo o que apalpam, todos os sabores, todas as visões… Tudo o que escrevo,é-vos assim tão indiferente?
Vós não me sois.


Tiago José Chaves
04/10/12
00:14

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"Jeffrey Dahmer"


     A quem será atribuída a culpa de nos tornarmos no que somos? Será mais fácil culpabilizar o seio da família onde fomos criados e o manifesto de amor de cada indivíduo com ela relacionado, ou a constante necessidade de fantasiar no mundo surrealmente real em que vivemos e, então, atribuir culpa à sociedade que nos ocupa de nos cingirmos a regras e mandamentos e leis que nos privatizam de “ser”?
     Naturalmente e instintivamente, somos a consequência da constante evolução que a nossa raça sofre e que, em certos casos, é mal interpretada.
     A nossa necessidade de sociabilizar não é causa de carência afectiva mas sim da repetição da distinção que existe entre nós.
     Digamos que no 1º degrau de uma escadaria nos está perfeitamente acessível um engenho que nos permite ascender para o último degrau sem termos que pisar os restantes.
     Seguindo uma teoria facilitista, o engenho seria de imediato utilizado, podendo ou não, aquando a realização do acto, suscitar no indivíduo a curiosidade do que poderá ter deixado para trás, tentando encontrar nas escadarias restantes as respostas que acabara de ignorar, mas nunca se aperceber do que se sucede, visto a resposta final carecer de conhecimentos básicos.
     Seguindo uma teoria igualmente humana mas, de certa forma, “dificultista”, o indivíduo sacia a sua vontade de conhecimento e apercebe-se que as restantes escadarias dar-lhe-ão maior sustento e o aproximarão da resposta final pretendida e desconhecida.
     Com isto concluo que cada falha na personalidade individual pode ser preenchida com qualquer outra matéria, mas nunca corrigida, visto qualquer remendo precisar, indiscutivelmente, de uma análise minuciosa a acontecimentos antecedentes que possam ter causado a desfragmentação da saúde mental do indivíduo.
     Por defeito, deixaremos sempre falhas connosco e que nos farão agir de acordo com as mesmas, de modos diferentes, dependendo da necessidade temporal que cada indivíduo atribuir à realização de cada feito.
     Dessa necessidade temporal advém o erro humano que, uma vez servido pelo seu erro, dificilmente esquecerá o processo errático e este tornar-se-á uma opção primária ou secundária, ficando dependentes uma ou a outra dos degraus pisados posteriormente.


    

Tiago José Chaves
21/08/2012
14:30 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Delete"

         Dá-lhes respostas. Senta-te e observa, porque assim como tu te repousaste para que algo acontecesse, eles também. Tudo o que disseste ou escreveste com a garra de quem se sente correcto, apenas serviu de alimento para um espectáculo de bestas esfaimadas, à espera que algo acontecesse. 
       Vira a página ao contrário. Faz uma interrogação e deixa-a pendente. A retórica pode, de facto, afectar.
        Lunáticos. Egocêntricos. Ignorantes.
       Eles vão pensar na questão. Quem quer que seja que dê uma resposta minimamente correcta, audível e "saudável", entala de novo uma estaca na roda dentada que move o bom senso, fazendo-os de novo sedentários de pensamentos alheios. 
     Por outro lado, digamos que a resposta aceite é revolucionária, inspiradora!... 
       É falível. É portadora duma doença que espalhará o caos mais rapidamente, vitimando-nos. 
      Vítimas. Curioso é que, apesar de divinamente ou erradamente racionais que somos, a culpa da extinção que nos aguarda dever-se-à apenas e somente à vossa constante ambição e fome insaciável de conhecimento, de mexer no que estava bem no sítio onde foi colocado. 
        Não há nada a fazer. Tudo o que se diga ou faça é em vão.
        A raça humana serrou uma árvore que esculpiu e poliu para fazer o seu próprio caixão.
         É a contagem decrescente.
         Foi um prazer enorme em conhecer-vos.
         "Tic-tac". 


Tiago José Chaves
18/08/2012
00:46

domingo, 12 de agosto de 2012

De pouco a nada


         Este frio envolve-me, como a mim nada antes me envolvera. Em cada passo que dou, sinto a dormência dos meus pés, arrefecidos pela água que se forçou a penetrar a sola gasta.
        É um novo fim. Um término que semeia um novo começo.
        O gelo derrete.
        A água aquece.
        Corre e humedece o solo. Molda, fertiliza, alimenta.
        Dá vida.
      Tiro-te um pouco. Só desta vez. Devolvo-te quando não tiver mais nada para te dar. Quando de mim um pouco de nada se souber ou recordar.
     Pereço em mim como um nó nunca desfeito. Como um fio sem ponta para que não me possam contar.
      Todas as minhas posses deixarão de fazer sentido. Todo o meu suor derramado estará mais que limpo. Tudo o que era de mim, deixará de o ser.
    Nomes, números, feitos e desfeitos, metas, vitórias, derrotas… Sem sentido.
       Cair é fácil.
       Tão fácil. 

                        Tiago José Chaves
12/08/2012
21:35
                               

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ego


Eu sei errar. Eu sou o meu erro. Mas aceito-me, porque luto para ser quem sou. A mais insignificante forma de agir, “significa”, no completo sentido da palavra. Eu significo, não “algo”, não “alguém”. Puro e simplesmente, significo.
     Mergulho na minha ignorância, assim como o meu orgulho mergulha na imensidão do desespero dos meus erros, mortos para serem diferentes, seja de que maneira for. Mergulho e bebo sempre dela, porque me agrada o seu sabor amargo, a sua falta de cor e o seu carácter. Eu sou um apaixonado por mim, como vós, que por mais que façais por outrem, na nossa douta ignorância, somos o nosso ego.

    
Tiago José Chaves
23/11/2011


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Não


Não faz sentido nenhum. Qualquer distinção é um erro. Crasso, por assim se dizer.
     Não somos mais que porcos que lutam pela sobrevivência, satisfazendo necessidades tão básicas como os animais que somos. Não somos mais que nada. Tudo finda.
     Não temos direito algum. Não temos posse alguma. Não temos sentimento algum. Não temos nada. Não temos tudo. Não temos tempo. Não temos espaço. Não temos modos. Não somos. Não fomos. Não vamos ser. Não há princípio. Não há fim. Não há infinito.
     Não vale a pena. Não vamos onde queremos, ou onde queres, ou onde eu quero.
     Não vai haver guerra. Não vai haver paz. Não existe quente. Não existe frio. Não há palavras. Não há escrita. Não há som. Não há silêncio. Não há cor. Não há escuro. Não há luz. Não há sombra.
     Não há afirmação.  


                   Tiago José Chaves
11/06/2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

T.D.T. - Processo de Homogeneização


      “Tudo à nossa volta parece imenso. Todos os nossos sentidos fazem sentido, enquanto estão sintonizados.
Sintonia. 
Arrepia-me tudo isso que funciona na perfeição. Arrepia-me o espanto de quando algo não está certo. Porque vos espantais? 
O erro. O que tanto vos assusta e que tanto tentais suprimir ao máximo dos máximos. Aquilo que não encaixa na roda dentada do tempo e do bom senso.  
Sentai-vos. Contemplai. Tenham o vislumbre da realidade que vos é transmitida por essa caixa que tantas verdades diz. É o vosso mundo. 
Eu, do lado de fora, com mais uma mão cheia de poucos outros loucos, contemplo o mundo que crio e que quero que seja eternamente imperfeito. Cultivo-o da forma que quero e da forma que sei que me ajudará a progredir. Mas neste meu mundo apenas pisam aqueles que eu permito que pisem. Há demasiados pés que se deixam guiar por fios que conduzem a abismos, aos quais eu não temo. 
Convido-vos a sentarem-se na poltrona do conhecimento e da verdade. Sentem-se, sem ordem para se erguerem de novo. Vós próprios declarais a vossa sentença.” 




Tiago José Chaves
02/05/2012