segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Recuo


     A luz esbate-se. Aparece imperceptível. Há um esforço quando essa luz se esbate. Quando se some. Mas não chega. Há para lá mais que o que se possa perceber.
     De desconfiados, ambos os pés que calço desviam-se sempre que essa luz me encontra. Os meus instintos segredam-me que ela é melhor quando imperceptível. Que se a vir demasiado perto, demasiado nítida, não serei mais eu.
     Eu creio no que me segredam.
     Mas ela brilha.
     Flameja.                
     E eu, que nunca pedi por luz que me iluminasse, que nunca quis perceber que chão pisam os pés que me calçam,… que nunca me fiz perceber por alguma luz: tento-me.
     E arrasto os meus pés em cinzas e carvão. E aquilo que foi ardido aproxima-se de algo que ainda arde. Aquecem-me os pés. Sinto os meus pés. Percebo o chão que piso.
     Recuo.
     Tenho medo.
     Nunca o calor procurara por mim.
     No escuro miro a luz de novo. E ela delineia-me. Ela dá-me tons e tonalidades. Ela mostra cores à sua volta. Ela despe tudo o que qualquer essência nunca havia alguma vez desnudado. Percebo o envolvente. Sinto-me quente. Estou perto dela. E não me aproximo mais. Ela começa-me a roubar o espaço, dando-me mais de um que desconheço.
     Contorno-a.
     Viro costas ao escuro e miro-a querer-me cada vez mais perto.
     Temo novamente.
     Estranho o escuro ser-me estranho.
     E volto de onde tinha vindo, deixando o calor apoderar-se de cada parte que exponho. Deixo que todos os meus átomos se agitem e se perturbem e me deixem desmedido e me avancem!...
     Que me avancem de uma vez por todas! Que me deixem abraçar o calor que desconheço! Que deixem que me queime! Que deixem que a luz de onde o calor sai, me cegue! Que o calor se aproveite do meu corpo e me endoideça!...
     Eu sei… sei.
     Sei que não verei mais. Sei que terei ainda mais frio. Sei que não vou saber. Sei que o chão me vai pisar e nada poderei fazer.
     Sei que vou recuar.


Tiago José Chaves
17/12/2012
21:24

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Manto


Os traços.
     São esses que teimam em não me abandonar o pensamento.
     A linha.
     Essa doce forma que percorre o teu ser, continuamente, numa sinfonia de simetrias de curvas irregulares que te desenham e que nunca a luz quererá abandonar, por mais que a sombra se ache tua por direito.
     E muito foi tua a ausência de luz quando te deixaste cobrir pelo manto negro de mágoa e dor que te deram sem pedido teu.
     Grotescos seres aqueles que o não souberam queimar quando to viram usar e possuir e fazer cair, nesse abismo de terra, humedecida pelas correntes que por lá passaram para que o fogo não pudesse pegar no que te cobriu.
     Diz-me: porque não te deixas cobrir de novo?
     A escuridão que nos aqueceu foi ausência de luzes diferentes. De semelhança infinita. E nessa dor julguei eu ver o que nos une. E na sombra julguei eu ter visto luz. E na tua sombra julguei eu ter sido o pavio que ardia incansavelmente, sem nunca aguardar por sopro que me terminasse.
     E aqueces-me.
     És fogo.
     Que me aquece, com medo de me queimar. E eu de ser queimado. Ainda mais que o que já fui. E fui. Acredita. Porque eu preciso.
     Preciso que acredites.
     Preciso que me tires e te tires do manto.
     Preciso que os queimes.
     Preciso que com o mesmo fogo que os queimaste, me aqueças a mim e a ti.
     Preciso que me queimes.



Tiago José Chaves
27/11/2012
19:56

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sombra


De ver estamos todos cansados. Fingimos querer ver mais, damos a entender um bem-estar que não o é, tentamos vender sorrisos que têm tanto de belos como de vazios.
     Esta constante partilha torna-se cansativa e recorre-se à futilidade. Ao acessível, alcançável, algo que nos não faça despender demasiado tempo.
     De todo esse jogo de ganhar e perder algo bom e mau e tudo quanto se possa adjectivar positiva ou negativamente, nada sobra para ninguém e de mão abanadas cairemos e seremos escondidos pela terra.
     Mas tentamos compreender. Para possuir. Para ter e mexer e virar e revirar.
     Continuamos a manusear o objecto que nos dá o jogo do qual ninguém mais ganha ou perde. Nem as regras sabemos. Nem por elas nos ralamos. Para quê?
     “O jogo”.
     A constante tentativa de percepção do que nos rodeia. De quem nos rodeia, no cerne de toda a pretensão.
     Esventramos toda a verdade oculta para alcançar o máximo de conhecimento. Mas é insaciável. Tudo é infindavelmente complexo e desejável. Tudo nos espicaça para conhecer mais. Mas nada sabemos. Tudo queremos saber, por nada há esforço.
     Quero-vos perceber.
     Quero-vos esventrar a cinzenta.
     Quero-me matar convosco.
     Tanto que nos tentamos perceber. Tanto que a partilha se dá e se vende sem querer, sem se pedir. E não percebemos. Não queremos perceber.
     Não olhamos para o centro dos palmos das nossas mãos. Não queremos entender que temos algo connosco e não há um mínimo de esforço para o gosto de se ter.
     Olhamos tanto para os palmos dos outros.
     Queremos tanto que o centro dos nossos seja como os deles.
     E aí há esforço.  
     Esforçamo-nos para os perceber. E conseguimos. Mas tão superficialmente. Tão relativamente certa que é a nossa percepção. Tal a nossa ignorância.
     Debrucem-se sobre o rio.
     Deixem que o sol vos bata nas costas.
     Deixem que se perceba a vossa sombra.
     Deixem-se ver para além dela.
     Aí colocarei a mão no vosso ombro. Aí entendereis o porquê do silêncio das palavras. Aí vereis que tudo isto é não mais que uma relativa percepção da sinfonia dissonante, extremamente harmoniosa. Que todo o ruído faz de si algo. Que tudo se torna útil.
Que tudo é ridiculamente perfeito.


Tiago José Chaves
07/12/2012
10:50

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

De olhos postos


     Nunca olhei devidamente para nada. Talvez porque nada tivera olhado devidamente para mim.
     Nunca olhei para cima. Nem nunca quis ver para baixo, tal o medo do voo e da queda que via repetirem-se na constante inquietação do meu pensamento.
     Mas voei. E caí.
     E tornaria a voar, mesmo sabendo que iria cair de novo. Porque me sei erguer. Porque me ensinei a fazê-lo.
     Memórias.
     Essas que teimam sê-lo.
     Essas que se unem ao sentimento como um elo da corrente que nunca me quis largar. Mas nunca me senti acorrentado. Nem nunca vi a corrente. E ela mesmo diante de mim, a agarrar-me e eu sem me deixar ir, com medo de cair. E a queda tanto eu queria para mim.
     Mesmo ensanguentado, mesmo ferido e me vindo sangue que nem meu era, ergui-me. Mesmo chorando e as lágrimas não me saberem às minhas, soube sorrir. Mesmo sofrendo e a dor não ter sido minha, soube voar.
     E vou saber olhar para cima.
     E vou saber olhar para baixo.
     E vou saber se fui olhado devidamente.
     E vou saber olhar.


Tiago José Chaves
27/11/2012
19:03