Curvei-me
eu, por perceber a minoria que represento quando me sinto como me sentia
naquele momento. Não poderia eu ter feito de outra maneira por ser improvável
alcançar o que me fazia curvar, se não me curvasse.
Não foi uma curva acentuada,
nem ligeira ao ponto de parecer que aquele gesto aconteceu por simplesmente me
estar a levantar. Foi subtil, foi numa quantia que o meu impulso de imploração
atenuada soube medir. Consegui o que queria e sentei-me a desfrutar do fumo que
me percorre os pulmões e que tanto me alivia de tudo o que me tem rodeado. Que
me alivia das curvas que tenho que fazer a quem nem sequer se apercebe que está
perante eles um ser curvado. Uma dobra na espinha, uma cedência física que dá
acesso a intervenções que me podem desagradar.
O fumo chegou ao fim e
permanece este incómodo acomodado de ter algo incompleto a rodear cada átomo
que me envolve. Uma eterna insatisfação da qual não me consigo livrar, mesmo
tendo eu solucionado de diferentes maneiras todas as variáveis deste problema
bicudo para a minha existência.
Não me ergo firmemente, não
sou firme na passada que dou, não tenho nada assente que tente sequer uma mudança
abrupta. Essa mudança que tanto me parece necessária e à qual revogo sem me
aperceber. Um comodismo que me foi transmitido e que já avaliei, que já se
mostrou inútil e debilitador. Mas é como uma teia de aranha no canto duma sala,
que se vê e se conhece a existência, que é estranha à sala mas que nela
permanece até que a limpeza seja feita. Como uma poeira assente num móvel ou
como cinza numa lareira apagada. Como qualquer metáfora que aluda à inutilidade
e que tanto gozo continua a dar de ser usada.
Não há outro vocábulo que eu
consiga empregar a não ser tristeza. Uma profunda tristeza. Porque é inútil
possuir conhecimento sem usufruir dele… porque é inútil ser sem saber se se é
ou não.
Encontro-me roto e mal
lavado, tanto que as caras que se cruzam no meu caminho não são frontais nem
apresentam expressões de curiosidade como quando, muitas vezes, atravesso uma
rua, de olhos escondidos por detrás de lentes espelhadas, esguio mas
aparentemente firme, lavado e descosido nos sítios certos. Olham-me de
esguelha, sem saberem bem que figura é a que se lhes apresenta, sem saberem bem
se podem desconfiar ou sequer do que poderão não confiar em concreto. Uma
completa incógnita, um passo recuado, um charco espelhado do qual se desconhece
a profundidade.
Serei eu quem?
Serei eu resposta a qual das
perguntas?
Serei eu sequer alguma
pergunta para quem quer que seja?
Serei eu resposta ao que
quer que exista?
Serei eu uma questão para
mim mesmo?
Serei eu resposta para mim
mesmo?
Serei eu a minha capacidade
de não ser eu?
Serei eu a minha capacidade
de ser eu, não sendo eu?
Serei eu realmente alguém?
Serei eu mais que uma
questão existencial constante, que não mais fará por aqui que colocar questões?
Serei eu mais que mera
retórica?
Serei eu mais que uma figura
esguia?
Serei eu o que digo ser?
Tiago José Chaves
30/04/2014
15:28