terça-feira, 7 de maio de 2013

Reflexos



Com que te debates?
     Uma profunda idealização de ti mesmo. Um reflexo do espelho que não consegues prever e que prevês no instante que te pertence.
     Com que te mexes?
     Dois tragos de vinho que secam a goela à passagem e te humedecem a essência que desperta quando menos sabes, sabendo tu demais.     
     A que te soube?
     A constante negação precipitada e calculada que fazes parecer despropositada para que te reconheçam em quem não és. Em quem te pretendes mostrar.
     Se vos esparramasse tudo e qualquer coisa que sois, acabaria na indiferença com que me deparo, borrifando-me para a vossa imagem.
     Mas sois.
     Sois precisamente o reflexo do espelho que vos desenha as costas. Sois precisamente a totalidade do que não mostrais ser e que ninguém nunca chegará a conhecer.
     O pensamento que vos é imediato pertence ao vosso tempo, que controlais sem controlo nele. Sem precisão.
     E precisais desse refúgio. Desse recanto infestado do que é apelidado de doentio porque a boa mãe e o bom pai assim disseram.
     Acordamos porque não podemos dormir.
     Dormimos porque não podemos ficar acordados.
     Comemos porque temos que comer.
     Temos que comer porque assim tem que ser.
     Lavamo-nos porque estamos sujos e sujámo-nos porque estivemos limpos.
     Cagamos porque já comemos e comemos porque já cagámos.
     Respiramos porque expirámos e expirámos porque não cabia mais ar. Mais nenhum.
     É cíclico.
     É podre.
     É nojento.
     É o que eu não sei se é ou não, por não saber quem sou e não me mostrar porque me mostro.
     Sois porque quero que sejais, mesmo que o espaço seja demais para haver encaixe na porca tapada pelo parafuso sem rosca.
     Nem máquinas somos!, e fomos nós que as fizemos!
     Nem bichos somos!, e somos nós que os comemos!
     Nem face temos!, e nem máscara há para cair!
     Nem nojo meteis, porque me sois o que sois:
     Nada.


Tiago José Chaves
08/05/2013
01:23