Com que te
debates?
Uma
profunda idealização de ti mesmo. Um reflexo do espelho que não consegues
prever e que prevês no instante que te pertence.
Com
que te mexes?
Dois
tragos de vinho que secam a goela à passagem e te humedecem a essência que
desperta quando menos sabes, sabendo tu demais.
A
que te soube?
A
constante negação precipitada e calculada que fazes parecer despropositada para
que te reconheçam em quem não és. Em quem te pretendes mostrar.
Se
vos esparramasse tudo e qualquer coisa que sois, acabaria na indiferença com
que me deparo, borrifando-me para a vossa imagem.
Mas
sois.
Sois
precisamente o reflexo do espelho que vos desenha as costas. Sois precisamente
a totalidade do que não mostrais ser e que ninguém nunca chegará a conhecer.
O
pensamento que vos é imediato pertence ao vosso tempo, que controlais sem
controlo nele. Sem precisão.
E
precisais desse refúgio. Desse recanto infestado do que é apelidado de doentio
porque a boa mãe e o bom pai assim disseram.
Acordamos
porque não podemos dormir.
Dormimos
porque não podemos ficar acordados.
Comemos
porque temos que comer.
Temos
que comer porque assim tem que ser.
Lavamo-nos
porque estamos sujos e sujámo-nos porque estivemos limpos.
Cagamos
porque já comemos e comemos porque já cagámos.
Respiramos
porque expirámos e expirámos porque não cabia mais ar. Mais nenhum.
É
cíclico.
É
podre.
É
nojento.
É
o que eu não sei se é ou não, por não saber quem sou e não me mostrar porque me
mostro.
Sois
porque quero que sejais, mesmo que o espaço seja demais para haver encaixe na
porca tapada pelo parafuso sem rosca.
Nem
máquinas somos!, e fomos nós que as fizemos!
Nem
bichos somos!, e somos nós que os comemos!
Nem
face temos!, e nem máscara há para cair!
Nem
nojo meteis, porque me sois o que sois:
Nada.
Tiago José Chaves
08/05/2013