sexta-feira, 29 de março de 2013

Jus


      O andar desajeitado de quem não sabe onde vai assentar os pés. O olhar desconfiado de quem não sabe onde pode parar o olhar. O balbuciar temeroso de quem tem medo de se pronunciar.
     Mostraste-te assim, como um ser sem local e tempo onde se pudesse encaixar devidamente. De todo, uma peça que sobrou num puzzle sem defeito. Um jogo que se joga com falhas que não se mostram.
     A timidez de quem se quer mostrar, a despreocupação de quem se não deixa de preocupar, o pestanejar de incredulidade que tinhas que te aceitar.
     Porque eras tu.
     Despiste-te em mim.
     Conheci cada canto teu, de tão imundo estar o meu pensamento. Vagueei em ti sem permissão de deuses que te possuem e de quem não abres mão. E não carregas tu cruz alguma que não a tua.
     Como flor que resiste no mais gélido frio, como gelo que não derrete sob ameaça do Sol, fui-te vendo e desvendando, sem te arrancar nem derreter.
     Arrancaste-te.
     Derreteste-te.
     Não deixarás de ser a peça a mais do meu puzzle, um enigma por resolver. Não deixarás de colocar questões sem sequer te pronunciares. Porque nasceste com o brilho que tens e no qual nego crença, no qual me vingo quando o manto negro me cobre.
     Que fazes tu aqui?
     Que queres tu de mim?
     Porque caminhaste sem jeito?
     Porque olhaste desconfiada?
     Porque balbuciaste?
     Porque te mostraste?
     Porque és tu?
     Porque tens cantos?
     Porque possuis encantos?
     Porque tudo em ti não há palavra que faça jus?


Tiago José Chaves
29/03/2013
03:17

sexta-feira, 15 de março de 2013

Esquece que te lembras


     Lembra-te como nasceste.
     Lembra-te como vieste.
     Lembra-te do colo.
     Lembra-te de chorares por mãos que te soubessem agarrar, que te abanassem, que te embalassem, que dessem peito para consolo, para satisfação que nem sequer entendias.
     Lembra-te do esforço, aquele que fizeste para deixares de gatinhar, que fizeste para ouvir e balbuciar, que te foi feito para deixares de mamar.
     Lembra-te das palmas quando sopravas velas, do sabor do bolo que tanto gostavas, do embrulho que te reluzia nos olhos.
     Lembra-te da insensatez das correrias. Quantas vezes as fizeste. Das primeiras leituras, do conhecimento que te deu amarguras, das tuas formosuras que encantaram os olhos de outrem.
     Lembra-te de quereres repetir a tua história.
     Esquece quem sou.
     Esquece quem somos.
     Esquece os risos e saltos e insolências, esquece cheiros, cores e paciências. Esquece onde te deitas e quem te deitou, esquece quem mais de ti cuidou.
     Esquece-te das palavras que leste e ouviste, do teu próprio toque e da facilidade de andares por aí a acenar a quem acenavas.
     Esquece o sangue.
     Esquece as lágrimas.
     Esquece os colos.
     Esquece os cheiros.
     Esquece a luz.
     Esquece que te lembras.


Tiago José Chaves
14/03/2013
17:00