quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Oco

Sinto perda.
     Se é que alguma vez houve ganho. Mas reafirmo: perco cada vez mais.
     Não quero complicar demais. As complicações são como uma silva. Basta haver uma para que facilmente se multiplique e ramifique rapidamente. Basta lembrarmo-nos que há uma complicação que agarramos com a mão, com força, um desses esguios espinhosos ramos. E nem que doa, por mais que doa, havendo sangue, se for preciso, até nos jogamos para cima delas.
     Prefiro, a sentir uma dor verdadeira. Prefiro sentir que me dói a picadela do espinho e que essa dor por pouco tempo se prolonga. Não por ser curta ou menos dolorosa, mas sinto-a deveras e sei indicar onde dói.
Prefiro essa que não se prolonga no nosso âmago como a que já tentámos agarrar com a mesma mão com que firmemente segurámos os espinhos. Prefiro, a essa que nos goza a cara por lhe sermos tão inferiores.
Parasita dor.
Qual mudança?
Qual mudança tentais vós dar-me?
Qual remédio vos convenço eu de tomar?
Qual sedativo que a pare ou morte que nos separe?
Eu vou deixá-la cá toda, ingrato como sou. Queiram-na como a quiserem, se é que a querem. E perguntem-me a verdade que defendo. Responder-vos-ei que a procurem, sendo do vosso interesse. Procurem-na com o mesmo fulgor com que a defendi, não tendo mais eu cá para defender. Procurem-na melhor que da forma que pensais agora procurá-la.
Ver-me não chega.
Abrir-me não chegará.
Ouvir-me será pouco e ler-me será ainda mais confuso. Inconclusivo. Será uma complicação.
Se vo-la descrevesse, seria com o apelido de apêndice com o qual vou vivendo. Com o qual vou morrendo, lentamente.
Morro como se soubesse o que é. Não, não sei deveras. Mas não vos falarei de viver. Sei menos ainda disso. Procurei vida, procurei gozo na felicidade que invocais, ri-me dos vossos risos e piadas e comovi-me com o que vos comove. Consegui tudo isso.
Cheguei lá.
E era vazio. Bem vazio. Bati nas paredes e só ouvi o oco que lá se multiplica. Multiplicando-se por nada.
Julgavam remediável?
Talvez seja.
Mas não hoje.



Tiago José Chaves
16/10/2014

15:52