quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Água e Farinha


     E isto dá as reviravoltas que tem a dar. E embrulha-se mais na massa de que é feita, ganhando mais densidade e resistência a algo que poderia ser útil para a não formação dessa mesma densidade embrulhada no que é feita e nem sequer existir.
     E é assim, confusa, que toda ela se torna a embrulhar, deixando de fazer qualquer sentido, querendo nós dar-lhe sentido. Quase como se tivesse vida própria. Quase como se ela mesma se quisesse tornar auto-suficiente. E nós damos-lhe mais farinha para engrossar, de quando em quando um pouco de água para não ser pó. E ela cresce, avoluma-se, ocupa um espaço maior. Quando nem espaço nós temos para a sustentar. E cada um a puxa para seu lado, conforme mais lhe convém. Cada um a estica e tira bocados, metendo mais água e farinha para fazer a sua própria e ter um gigante disso mesmo.
     Conveniência da possessão ridícula que um dia tive o prazer de ter. Enfim, catraio que era. Não conseguia dominar na totalidade aquilo que me foi atribuído. E eu retribuo a dádiva, dando-lhe bom uso agora que tenho alguma visão do que é tê-la.
     Deitei a outra posse fora. Não me aprazia. Ganhei-lhe ódio. Ganhei ódio ao que eu era.
     Por vezes vejo-vos a não conseguirem arrastar o vosso gigante, obeso, imensurável, tal a quantidade de farinha que lhe pusestes. E ignorante caminho eu, na vossa direcção, a fim de vos ajudar a arrastá-lo mais um pouco. Mas sei que não devo cair na tentação de tirar um pedaço dele. Ele é vosso. Não meu. Já tive um e perdi o meu sustento para lhe dar a ele.
     Admira-me, como também me deixa de admirar, como conseguis ainda deixar-vos ser tapada a visão com tamanho monte de merda, com tamanha imensidão de matéria insignificante até para o mais insignificante dos seres. Como podereis sequer olhar para tal, puro e simplesmente porque vos cobre a dianteira? Não sabeis vós que haveis deixado a retaguarda destapada? Não percebeis vós isso?
     É mentira.
     Sois mentira. Envolveis-vos mais nela. E meteis-lhe mais um pouco dela. Para que ela seja cada vez mais ela. Para que não saibam mais o que é serem vocês. Para que não distingam nada que vos encontre à frente. Porque não a sabeis contornar e deixá-la atrás, nas vossas costas, para que os vossos olhos sejam vistos e sejam lidos e sejam confiados. Para que tudo se torne um pouco mais real, para além da realidade obesa que construístes.
     Porquê?
     Porquê?
     Porque me põem no meio disso tudo? Porque é que me sinto como miolo de pão cozido num forno onde tantos outros se deixaram queimar?
     Porquê?
     Porque é que me deixo comer pelos vossos gigantes, pelo atroz que sois, pelo incorrecto que sois?
     Porque me mentem?
     Porque se mentem?
     Desisto-vos.
    
     Tiago José Chaves
21/11/2012
22:12

domingo, 18 de novembro de 2012

Círculo


     Um cansaço repentino invade a minha quietude.
     Sinto frio e ligeira mas dolorosa dormência em cada músculo meu. E toco-me, incrédulo, como há muito me não era possível fazer.
     Sinto o meu corpo, finalmente.
     Tudo permanece como deixei. Mas parece tudo fora do lugar. Parece tudo descoordenado, dessintonizado, desigual, confuso. 
     Não me questiono mais. Levanto-me.
     Dirijo-me ao local de onde a casca sai pura, limpa e aceitável. E torno a minha pura, limpa e aceitável.
     Ainda a cambalear na dormência física que me fora ligeiramente aquecida pelo líquido abundante, relevante, mas menosprezado, tapo a casca com panos com feitios, cheios de simetrias e assimetrias em perfeita concordância, fazendo com que ao olhar não se tornem indiferentes.
     Estou pronto.
     Estou aceso como vós todos, luzes diurnas.
     Alinho-me na ordem pré-feita para que não seja destacado do comum e me alertem e punam. Da linha não saio e dou sinais de que me desloco e que irei, ordeira e regradamente, encaminhar-me para o meu local de ascensão vital.
     E chego lá. Atempadamente, como bom cão que sou. E aguardo que me olhem de esguelha, que nem vadio a passar. Embora de vadio só queira ter a mente. Mas não posso. Tenho ordem em mim.
     O tempo está ainda mal desperto em mim e já me pressionei para o não questionar ou me impor. Esse que usa e abusa de mim. Esse que quando esqueço me apraz e quando lembro me encolhe e enruga.
     No miolo deste imundo sítio abano o topo da minha casca e rasgo em mim um sorriso amarelo à abundância de cascas polidas que por mim passam, sem se aperceberem da irrelevância que me assumem. E sorrisos amarelos tenho eu de volta.
     De novo, a perfeita sintonia.
     Dou de mim, arranco de mim e dos outros, para me dar e te dar. E olho e oiço e rabisco para poder continuar a de mim dar e a arrancar e a lhes dar e te dar.
     Somos de uns para outros. Para uns mais seremos que para outros. De uns mais tiraremos e a outros mais daremos. Em proporção errada de escolhas erradas que nos tornam um constante erro. E se lhes não dermos, se de nós não arrancarmos, se de vós e deles não tirarmos, eles vão salivar, famintos, impacientes. Dá-lhes esse naco de carne de papel. Aprá-los.
     Chegou ao fim.
     Retorno por onde vim. Ordeiramente.
     Recolho-me e retiro os panos balançados e simétricos e belos. Dispo a noção de casca que vesti durante a dormência.
     Encolho-me. Dos medos. De tudo isto.
     Cubro-me.
     Aguardo.

     Tiago José Chaves
14/11/2012
14:15

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Credes

Acordais sobre ela.
     Agis sobre ela.
     Dormis sobre ela.
     Respirais sobre ela.
     A constante forma de estar que nunca vos deixa recuar, embora hajam tantos tropeços pelo meio desse caminho que nem eu sequer posso ignorar.
     Não sois, mas pareceis, ruminantes de ideias e pensamentos e milagres e acontecimentos.
     Mastigai-os bem.
     Deleitem-se nisso. Na “verdade”. Ele disse-vos tudo, porém não O ouviram. Ele mostra-vos tudo, porém não se mostra. Ele dá-vos tudo, no entanto procurais. Ele tocou-vos à nascença, porém sofreis e fazeis sofrer na continuidade de atrocidades que tentais incutir uns aos outros.
     Passai-lhe um pano humedecido de água quente em cima. Do frio vos salvais.
     Molhai-vos em água limpa e fresca. Do calor vos salvais.
     E é assim, desde sempre, para que uma base nos pés exista. Para que vos seja possível dar algo aos outros. Para que pareça que não há indiferença. Para serem perfeitos ou perto disso.
     Palavras são doces, são amargas. São mentira e verdade. Palavras são luz e sombra, são fome e fartura, são sede e embriaguez.
Drogam-nos.
Confundem-nos.
Conduzem-nos.
Alinham-nos os olhos para onde bem entenderem.
Palavras são tão facilmente cruéis e amáveis.
Mas entendo quando as ouço. Entendo sempre, bem ou mal. Mas sei que estou certo ou errado. Sei que posso, e não, cair.
Vós credes, piamente, nalgo. Algo são palavras. Algo são esperanças. Algo é o que vos mantém de pé. E não interessa o que vos digam: é verdade. E não incomoda a mentira, tal a força que usais para agarrar a verdade que ela vos dá para a mão.
De verdade vos poderia presentear infindavelmente, exaustivamente, como bom dono dela que sou. Assim como vocês, maravilhas, iluminados, sombras, me dariam não mais que mentiras, como donos bons de verdades vossas que sois.  
Pouco mais ou menos somos uns em relação aos outros, mas cheiramo-nos à légua, encontramo-nos, observamo-nos, tocamo-nos, partilhamo-nos, testamo-nos, questionamo-nos, ignoramo-nos, exaltamo-nos, desentendemo-nos. Findamo-nos.
O nosso percurso choca, porque começou sem pedirmos. Porque “somos”, sem termos tido voto.
E são-nos ditas verdades e mentiras. Minhas e tuas. Ou só minhas e só tuas.
Mas deleitamo-nos de novo nelas. Vezes sem conta.
Afinal, somos a nossa crença.

    

Tiago José Chaves
06/11/2012
09:45