E isto dá as
reviravoltas que tem a dar. E embrulha-se mais na massa de que é feita,
ganhando mais densidade e resistência a algo que poderia ser útil para a não
formação dessa mesma densidade embrulhada no que é feita e nem sequer existir.
E
é assim, confusa, que toda ela se torna a embrulhar, deixando de fazer qualquer
sentido, querendo nós dar-lhe sentido. Quase como se tivesse vida própria.
Quase como se ela mesma se quisesse tornar auto-suficiente. E nós damos-lhe
mais farinha para engrossar, de quando em quando um pouco de água para não ser
pó. E ela cresce, avoluma-se, ocupa um espaço maior. Quando nem espaço nós
temos para a sustentar. E cada um a puxa para seu lado, conforme mais lhe
convém. Cada um a estica e tira bocados, metendo mais água e farinha para fazer
a sua própria e ter um gigante disso mesmo.
Conveniência
da possessão ridícula que um dia tive o prazer de ter. Enfim, catraio que era.
Não conseguia dominar na totalidade aquilo que me foi atribuído. E eu retribuo
a dádiva, dando-lhe bom uso agora que tenho alguma visão do que é tê-la.
Deitei
a outra posse fora. Não me aprazia. Ganhei-lhe ódio. Ganhei ódio ao que eu era.
Por
vezes vejo-vos a não conseguirem arrastar o vosso gigante, obeso, imensurável,
tal a quantidade de farinha que lhe pusestes. E ignorante caminho eu, na vossa
direcção, a fim de vos ajudar a arrastá-lo mais um pouco. Mas sei que não devo
cair na tentação de tirar um pedaço dele. Ele é vosso. Não meu. Já tive um e
perdi o meu sustento para lhe dar a ele.
Admira-me,
como também me deixa de admirar, como conseguis ainda deixar-vos ser tapada a
visão com tamanho monte de merda, com tamanha imensidão de matéria
insignificante até para o mais insignificante dos seres. Como podereis sequer
olhar para tal, puro e simplesmente porque vos cobre a dianteira? Não sabeis
vós que haveis deixado a retaguarda destapada? Não percebeis vós isso?
É
mentira.
Sois
mentira. Envolveis-vos mais nela. E meteis-lhe mais um pouco dela. Para que ela
seja cada vez mais ela. Para que não saibam mais o que é serem vocês. Para que
não distingam nada que vos encontre à frente. Porque não a sabeis contornar e
deixá-la atrás, nas vossas costas, para que os vossos olhos sejam vistos e
sejam lidos e sejam confiados. Para que tudo se torne um pouco mais real, para
além da realidade obesa que construístes.
Porquê?
Porquê?
Porque
me põem no meio disso tudo? Porque é que me sinto como miolo de pão cozido num
forno onde tantos outros se deixaram queimar?
Porquê?
Porque
é que me deixo comer pelos vossos gigantes, pelo atroz que sois, pelo
incorrecto que sois?
Porque
me mentem?
Porque
se mentem?
Desisto-vos.
Tiago José Chaves
21/11/2012
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