terça-feira, 6 de novembro de 2012

Credes

Acordais sobre ela.
     Agis sobre ela.
     Dormis sobre ela.
     Respirais sobre ela.
     A constante forma de estar que nunca vos deixa recuar, embora hajam tantos tropeços pelo meio desse caminho que nem eu sequer posso ignorar.
     Não sois, mas pareceis, ruminantes de ideias e pensamentos e milagres e acontecimentos.
     Mastigai-os bem.
     Deleitem-se nisso. Na “verdade”. Ele disse-vos tudo, porém não O ouviram. Ele mostra-vos tudo, porém não se mostra. Ele dá-vos tudo, no entanto procurais. Ele tocou-vos à nascença, porém sofreis e fazeis sofrer na continuidade de atrocidades que tentais incutir uns aos outros.
     Passai-lhe um pano humedecido de água quente em cima. Do frio vos salvais.
     Molhai-vos em água limpa e fresca. Do calor vos salvais.
     E é assim, desde sempre, para que uma base nos pés exista. Para que vos seja possível dar algo aos outros. Para que pareça que não há indiferença. Para serem perfeitos ou perto disso.
     Palavras são doces, são amargas. São mentira e verdade. Palavras são luz e sombra, são fome e fartura, são sede e embriaguez.
Drogam-nos.
Confundem-nos.
Conduzem-nos.
Alinham-nos os olhos para onde bem entenderem.
Palavras são tão facilmente cruéis e amáveis.
Mas entendo quando as ouço. Entendo sempre, bem ou mal. Mas sei que estou certo ou errado. Sei que posso, e não, cair.
Vós credes, piamente, nalgo. Algo são palavras. Algo são esperanças. Algo é o que vos mantém de pé. E não interessa o que vos digam: é verdade. E não incomoda a mentira, tal a força que usais para agarrar a verdade que ela vos dá para a mão.
De verdade vos poderia presentear infindavelmente, exaustivamente, como bom dono dela que sou. Assim como vocês, maravilhas, iluminados, sombras, me dariam não mais que mentiras, como donos bons de verdades vossas que sois.  
Pouco mais ou menos somos uns em relação aos outros, mas cheiramo-nos à légua, encontramo-nos, observamo-nos, tocamo-nos, partilhamo-nos, testamo-nos, questionamo-nos, ignoramo-nos, exaltamo-nos, desentendemo-nos. Findamo-nos.
O nosso percurso choca, porque começou sem pedirmos. Porque “somos”, sem termos tido voto.
E são-nos ditas verdades e mentiras. Minhas e tuas. Ou só minhas e só tuas.
Mas deleitamo-nos de novo nelas. Vezes sem conta.
Afinal, somos a nossa crença.

    

Tiago José Chaves
06/11/2012
09:45

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