quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Identidade

     Quantas vezes te sentiste desamparado?
     Quantas vezes sentiste que, a cada passada, o chão ficava cada vez mais mole, cada vez mais líquido, cada vez mais disperso e sem beiras onde te pudesses agarrar, cada vez mais solto da tua sola… cada vez menos chão?
     Quantas vezes caíste quando abrias os olhos?
     Quantas vezes a queda abrandou quando os fechavas?
     Quantas vezes os abriste?
     Quantas vezes os fechaste?
     Quantas vezes te lembraste como era estar assim?
     Quantas vezes bateste com a cara no chão com tanta força que, saber que houve amparo, te soube bem?
     Quantas vezes te soube bem?
     Quantas vezes soubeste distinguir um chão do outro?
     Por mais que me esforce a explicar, não há explicação.
São meras desculpas que uso para encobrir todas as minhas falhas. Todas essas falhas me fazem como sou e permitem que me vejam e me oiçam. Que me vejam sem me verem e me oiçam sem me ouvirem. Que a imagem mostra um homem fácil de partir mas com algo mais para mostrar que pedaços estilhaçados. Que o som vos soa a um homem com dons e crenças que são tão firmes como a imagem que a tudo nele faz jus.
     Não se deixem enganar por sorrisos bem aplicados nem por vocábulos embelezados. Não se deixem levar pela prosa que vos cheira a tinta verdadeira, derramada pelas mãos desse ser. Dessa angustiante forma de vida que bem pode entrar e sair de vós da mesma forma que sai e que entra em quem quer que seja. E é fácil para ele fazer tudo isso.
     Ele está cada vez mais desamparado, cada vez mais debilitado das suas capacidades. De qualquer delas. Ele sabe que resultaram em pequenas proporções e nem sequer lhe dá gozo que se alarguem.
     Ele baixou os braços de vez e nada espera porque o breve tempo que por ele passou, passou-o. E já nem no tempo ele consegue acreditar.
     Ele nem levanta o rabo da cama por se ter rendido aos prazeres do descanso, que bem ele sabe que sabe bem por o não merecer e que o reclama com todo o direito.
     Ele choraminga por tudo e por nada, mas já nem faz como dantes, que optava pela facilidade de atirar o saco da culpa para cima de quem tivesse ombros para lhe suportar o peso. A ele já não lhe pesa a culpa e de mais nenhuma ele se livrou.
     Ele fazia-se de coitado, falava em precipícios e cordas e portas e camas e tempos e memórias e todas essas coisas sem nexo algum, sem hoje sequer olhar para nada em concreto e se agarrar ao que quer que seja para brilhar no escuro dele para que o vejam como um ser indefeso que precisa de um aconchego físico ou verbal, que lhe faça sentir um toque de conforto ou que o deixe ouvir uma palavra de compreensão.
     Ele é um completo mentiroso que se aproveita das vossas fragilidades para conseguir reflectir em vós toda a dor e sofrimento ou qualquer outra experiência pela qual esse tal vos tenha dito que passou.
     Ele é um oportunista que vos apanha de baixa guarda e vos faz crer que ele é o que é, sabendo ele bem que não há identidade para um ser sem nome a atribuir.
     Ele é a chave para uma porta sem fechadura, ele é o que esta tinta vos diz que ele é. Ele é tudo e mais alguma coisa. E houvesse mais alguma coisa que ele pudesse ser, que vos garanto que ele sê-lo-ia.     
     Ele é um beco sem saída.
     Ele é uma saída para qualquer beco.
     Ele é ferro e água.
     Ele é acto e palavra.
     Ele é tinta e papel.
     Ele é quem ele não é.



Tiago José Chaves
27/11/2013

01:33

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Jogo

     Talvez fosse melhor interpretar tudo isto como um jogo. E são vários os jogadores que se vêm. Uns de cartas, outros de dados, outros apenas jogam porque vêm os outros jogar… Não sei até que ponto não será mesmo assim.
     Parece-me que tudo tem a ver com ganhar ou perder, perder e ganhar ao mesmo tempo, sem nunca ganhar nem perder nada. Fica tudo estancado, com uma aceleração incrível! Tudo se mexe e remexe, tudo se aposta e rouba e espreita, tudo se ganha antes de se perder ou se perde antes de ganhar.
     Ganhar.
     Perder.
     E com mais vigor ainda se deitam as cartas e os dados nas mesas em veludo verde. Com vigor se chupam os cigarros e se sugam os líquidos dos cálices. A vontade apodera-se do jogo, o jogo apodera-se do jogador… O jogador, fraco, um mero figurante do jogo, um mero elemento que atira à mesa e que julga que o veludo lhe vai tornar tudo mais macio, que julga ter controlo de algo que se rege meramente por probabilidades que são contáveis e batoteiras,… Esse que ganha ou que perde, não será mais que isso: um vencedor ou um perdedor.
     Tudo tão controlável para ele! Tudo tão alcançável!
     Recolhe as cartas, rola os dados, joga o jogo, aposta bem alto, faz mais um bluff ou bufa nos dados, que eles acreditam que ou tens ou não tens sorte. Porque és um jogador.
     E agora passas as mãos na cabeça. Porque ganhaste tanto! Perdeste muito, mas ganhaste tanto!
     Mas perdeste muito. E não ganhaste nada. Perdeste tudo e ganharam-te tudo. E eles são jogadores como tu. Eles passam as mãos no veludo e são iludidos pelo seu macio. Eles ganham e perdem ou ganham ou perdem ou perdem e não ganham.
     Eles são como tu, que não és como ninguém. Porque ganhaste sozinho. E assim perdeste. Mas não importa! Porque ganhaste! Foste vencedor e sentiste isso como se tivesses sido tu!
     E foste tu!
     Não interessa mesmo, porque lhe tiveste o sabor. E o dissabor. E o sabor do dissabor. E o dissabor do sabor.
     Quanto perdeste quando ganhaste?
     Quanto ganhaste quando perdeste?
     Quanto ganhaste quando ganhaste?
     Quanto perdeste quando perdeste?
     Quantos mais ganharão por ti?
     Quantos mais perderão por ti?
     Quantos mais jogarão contigo?
     Ganhar ou perder é perder ou ganhar.



Tiago José Chaves
17/10/2013

01:26

domingo, 13 de outubro de 2013

Em tiras


     Todos esses erros em que te vi, vi-te neles.
     Toda a passada que te vi dar, deste-a.
     Todo o movimento que te vi executar, executaste-o.
     E nem pela medida mais pequena que possam encontrar, a medida do que fizeste era mensurável.
     Tão grande esse teu feito!
     Tão grandes esses teus efeitos!
     Tão desengonçadamente organizado e medido é esse teu jeito de ser!
     Tão delicioso é aproveitar a delícia da espontaneidade meticulosamente calculada e medida!
     Tão frágil te tornas deitado no chão.
     Tão frio se torna esse chão que nem dá calor suficiente para que possas apodrecer. Nem o tempo te dá tempo para te findares. Nem esse teu medo de ti se quer alimentar.
     Decerto te alimentam de muitas outras coisas. Daquelas que não despendes… aquelas estratégias, que te levam a roubar um pouco daqui e dali e te mostram diferente ali e aqui. E não só dessas coisas.
     Essa basicidade não poderia ficar por aí, pois o básico considerado por diferenciadas mentes de igualdades não se deixaria ser excluído.
     Tens que te alimentar!
     Tens que repousar!
     Tens que te dar para que te seja dado em troca, mas sempre sem dares ponta de ti. Isso seria, decerto, pedir demais!
     Todos esses preciosismos em que te escondeste e ninguém te quis ver, eu vi-te neles.
     Todos os arranjos que nem sabias arranjar, eu vi-te contornar.
     Todas as mãos que tu querias para te ampararem, eu puxei-as para que te amparassem.
     Todas as vozes que te pronunciaram, souberam de ti pela minha voz.
     Todas as tuas mentiras, fui eu que as escrevi.
    


Tiago José Chaves
14/10/2013

00:18

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Semelanças"

  
     Adormecido.
     Como qualquer outro ser que se deixa levar para o incógnito do sono.
     De um sonho.
     De muitos outros sonhos lavados com água e sabão, à pressa, sem saber porque é que a pressa assim de nós se apodera.
     Instala-se a correria e a correr marcamos o andamento da luz que se mostra e se esconde uma vez de cada vez.
     Parece uma corrida.
     E corremos como doidos e com doidos, quase de mãos dadas, como se tivéssemos todos um mesmo propósito e como se a pele e a carne que nos reveste fosse finalmente pretexto suficiente para que simplesmente soubéssemos como deixaríamos ficar a nossa pele com outra pele.
     Peles frias, húmidas, gretadas, pálidas, sujas de um encardido que a ninguém incomoda.
     Peles em mãos que se dão com um toque leve umas às outras, com medo de se tocarem ou de serem vistas quando se tocam.
     Mãos abertas, apalpando no ar o ponto ideal onde se possam agarrar. Um vazio tão palpável quanto qualquer berma de qualquer coisa que lhe aparecesse. Uma qualquer saliência.
     Assente com os pés, meios desalinhados, meios forçados a sustentarem um peso qualquer, que se balanceia de um lado para o outro, sem saber bem se é para um ou para outro.
     Assim nos vejo, sem ordem, sem distâncias medidas nem alturas caídas, sem suporte para os pés nem pés que nos suportem.  
     Sem força de mãos ou força que preste.
     Sem berma quieta ou quietude que o seja.
     Sem que peles se toquem.
     Sem que toques em mim.
     Sem pés numa corda.
     Sem corda.
     Para cada berma, sua vertigem.
     Para cada vertigem, nada semelhante.
    


Tiago José Chaves
08/10/2013
00:25

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

(V)ês

É tão simples quanto isso que vos tanto deu prazer nem sequer me comover.
     O vosso nível, o patamar que julgais ocupar, é não mais que uma mera ilusão para quem a aceita comer.
     Pareceis pássaros, a darem de comer do que sois à passarada mais nova. Tornai-los eternamente fortes antes de morrerem!
     Aclamais-vos na vossa pacificidade como uma tribo de índios se deixa levar pelo fumo distante da fogueira com homens e mulheres que a rodeiam, ouvindo hipnotizantes ruídos do ritual que presenciais, exaltando-vos as hormonas e tremelicando-vos o sexo na esperança de que nada entre vós se intrometa.
     De todo, índios.
     De todo, corajosamente pacíficos.
     De todo, energúmenos.
     Esquivos.
     O fumo que vos hipnotizou não tapou os olhos a outrem. Contudo, sentistes-vos completamente invisíveis e isolados.
     E escondestes-vos.
     Escondestes-vos, com a ânsia de repetir.
     E repetistes-vos, escondidos, para que ninguém vos descobrisse.
     Índios que fazem o retorno à civilização.
     Cidadãos que se tapam como todos os outros, julgando-vos vós tão imensamente diferentes.
     Escrevo-vos para vos lembrar que exististes e que a vossa tribo foi fugaz!
     Tão fugaz em tempo como na vossa mentalidade e real percepção do que vos rodeia.
     Omissos.
     Mesquinhos.
     Mentirosos.
     Jogadores.   
     E indiferentes, que me sois.
     Mas retornem um para o outro.
     Não vos inquieto mais.
     Sois… Verdadeiramente Verdadeiros.


Tiago José Chaves
19/09/2013

00:00

sábado, 13 de julho de 2013

Permissões desnecessárias

erPermitam-me que desça bem baixo.
     Que me iguale a vós. Que me nivele, fisicamente, a vós.
     Permitam-me, sem que me seja concedida autorização, usar termos que vos ressoam e que negais, por vos pressionar a concordância de que os mesmos não se enquadram num padrão de alguém civilizado, digno de aceno subtil com a cabeça ao passar numa rua, ou de um aperto de mão firme como se ali ficasse marcado um mútuo respeito.
     Concedo-vos uma qualificação, subtil, como vós: sinuosos.
     Tenho-vos como um percurso de curvas e contracurvas, de precipícios infindáveis que nunca suscitam a queda, por ser temeroso o seu final.
     Por isso, por uma infinidade de outras razões, vos vejo como seres repugnantes.
     Passo a explicar, que vos é algo tão normal, tão relativamente acessível, que não requer qualquer tipo de privacidade. Não careceis de manto algum que vos cubra os dentes, a língua, a saliva, para vos deixar apreciar o sustento.
     Contudo, negais serviços à vossa imunda fossa, à vossa poça de esterco, literalmente, quando vos sentais na loiça com formato apropriado para receber um dos resultados do vosso sustento.   
     Aí, cobris-vos.
     Aí não há quem vos suporte, quem aprecie a beleza duma forte secreção anal que empesta o ar e afugenta qualquer decente.
     Sois assim tão belos quanto vos descreveis?
     Outra faceta vossa que me encanta enojadamente: o vosso acto reprodutivo.
     Tão singelo, com partilhas de toques e cheiros, de fluidos corporais que são tão naturais quanto a vossa intenção.
     Deriva de amor, que por sua vez vem da convencionalmente negada atracção, que por si só não existiria, não fossem vós intrinsecamente animalescos.
     Digam-me, sem repúdia, quantos foram os desejados? A quantos vos apeteceu conhecer o interior, aquele por debaixo da roupagem, a simples mecânica humana que nem se pode detalhar para que os olhos dos outros se não semi-cerrem quando vos encaram?
     Contem-me se vos não apeteceu nunca pegar num desses seres aparentemente intocáveis e fazer dele vosso objecto, para vos satisfazer, sem limites, sem coberturas que vos separem do que é chamado de imundo. Contem-me a quantos não vos apeteceu, por apetite mesmo, penetrar ou ser penetrado, sem preocupação mínima de que houvesse reciprocidade no acto. A quantos não vos apeteceu simplesmente usar para vosso proveito e largar no instante da sacia?
     Deixem-se de formalidades.
     Sejam bárbaros como sois abafados.
     Sintam inveja e aproveitem-se dela, sintam-se uma espécie de animal e desnudem-se de conceitos de respeito evidentemente ultrapassados e sem qualquer contexto.
     Vós não sois, em nada, intrinsecamente respeitosos ou algo que se assemelhe.
     Vós em nada sois prestáveis que não para sacia sem preocupação com mutualidades.
     Deixem-se de tretas e joguem baixo porque sois assim.
     Sou-vos sincero.
     Porque sei como vós.


Tiago José Chaves
13/07/2013

15:51

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sem título

     Inalcançável.
     Uma espécie de paralelismo, lado a lado, na esperança que o infinito traga o encontro.
     Mas é infinito.
     Inteiramente finito. Inconcebível à nossa noção de tempo e espaço.
     Não há sequer flexibilidade que possibilite alteração no rumo.
     Há, de facto, coisas inalteráveis. Há algo que nunca ninguém alguma vez entenderá. Haverá sempre limite no satisfeito conhecimento alcançado. Haverá sempre frustração. Haverá sempre uma mútua aceitação e negação à ignorância.
     Um conjunto de anormalidades gritam no fundo do nosso ser, deturpando por completo qualquer noção de realidade e de ficção.
     Qualquer conhecimento é nulo.
     Qualquer existência se anula.
     Qualquer coisa, por mais que seja dessa mesma coisa, tende por se anular.
     O fim dita-se por ele próprio aquando o seu início. E falo do que não sei, porque sei que o não conheço.
     Disso estou certo.
     Disso vos posso acertar.
     Não há nada que não seja tudo, nem tudo que não tenha sido ou se venha a tornar nada.
     Tudo dita o seu próprio fim.


Tiago José Chaves
19/06/2013

13:30

domingo, 7 de julho de 2013

Página

Julguei-te livre.
     Como água que flui no rio, ou peixe na água que deixa passar qualquer atrito, não prestando mínima atenção.
     Julguei-te um salto.
     Alto, sem começo nem fim. Apenas a sensação de que a gravidade puxa para baixo e nem sequer permite pensar no seu término.
     Julguei-te papel.
     Ligeiramente amarrotado, com vincos acertados, rabiscados, manchados, onde não negavas repouso da tinta arrastada por dedos calejados.
     Julguei-te.
     E agora que me molho, que me mergulho ao teu encontro, a corrente torna-se densa. Abranda-me.
     Julguei-te.
     E enquanto corto o ar, enquanto me deixo puxar, vejo o chão.
     Julguei-te.
     E agora que sinto aquele sufoco por carregar as palavras em tinta, por me doerem os dedos calejados, mostras-me uma página repleta de histórias, preenchida por nomes com defeitos e feitios, de datas, perfeitas... E de desvios, aqueles em que tanto te empenhavas seguir.
     Julguei-te, porque sei julgar, porque sei começar sem acabar, porque sabia que iria perdurar. E deu para prolongar.
     E sei que não vai apagar.
     Porque nem por mim foi escrita.


Tiago José Chaves
08/07/2013

03:32

terça-feira, 11 de junho de 2013

Trono



     Sei que estava errado. Por nem haver sequer erro. Porque estava certo da incerteza da sensação.
     Senti a dureza do olhar que me amoleceu, mudando a essência rugosa e impenetrável que mostrei e mostro a quem não permito presença no meu império desmoronado.
     Nem nele permito que toquem, aquando a inexistente visita.
     Mas deixei-te entrar.
     Escancarei-te a porta diante o rosto, deixei-te ver a minha essência que sei que não negarás, até não mais aceitares.
     Deixei-te, pedra por pedra, reconstruir o império que deixei ao desleixo por saber que no trono, quem se sentaria eras tu.
     Tu, ou alguém como tu, a quem nem sequer calculo existência.
     Imensamente tu, que não sei quem és nem quem foste, conhecendo-te como os palmos das minhas mãos.
     Estou certo da minha certeza, no certo erro do que isto é.
     Porque sei que se te não sentares, aí, nesse trono que te aponto, onde te bandejo por completo o meu inteiro, o império não faz sentido. O império tem destino à ruína. Uma que visitarei sem nunca sair dela, cerrando por dentro os portões que barram o exterior.
     Nego a luz e o luar, o vento e a sombra de tudo, para mergulhar de novo de onde talvez nunca deveria ter saído.
     Porque se não sentir sequer, de novo, a tua face na minha, o teu cheiro em mim, os teus olhos nos meus, melindrosamente, ou como quer que seja, negar-me-ei por completo.
     Deambularei pelo mundo com meros retratos do que imaginei ser. Do que continuo a não ser.
     Por te não teres sentado.


Tiago José Chaves
10/06/2013
21:54

terça-feira, 7 de maio de 2013

Reflexos



Com que te debates?
     Uma profunda idealização de ti mesmo. Um reflexo do espelho que não consegues prever e que prevês no instante que te pertence.
     Com que te mexes?
     Dois tragos de vinho que secam a goela à passagem e te humedecem a essência que desperta quando menos sabes, sabendo tu demais.     
     A que te soube?
     A constante negação precipitada e calculada que fazes parecer despropositada para que te reconheçam em quem não és. Em quem te pretendes mostrar.
     Se vos esparramasse tudo e qualquer coisa que sois, acabaria na indiferença com que me deparo, borrifando-me para a vossa imagem.
     Mas sois.
     Sois precisamente o reflexo do espelho que vos desenha as costas. Sois precisamente a totalidade do que não mostrais ser e que ninguém nunca chegará a conhecer.
     O pensamento que vos é imediato pertence ao vosso tempo, que controlais sem controlo nele. Sem precisão.
     E precisais desse refúgio. Desse recanto infestado do que é apelidado de doentio porque a boa mãe e o bom pai assim disseram.
     Acordamos porque não podemos dormir.
     Dormimos porque não podemos ficar acordados.
     Comemos porque temos que comer.
     Temos que comer porque assim tem que ser.
     Lavamo-nos porque estamos sujos e sujámo-nos porque estivemos limpos.
     Cagamos porque já comemos e comemos porque já cagámos.
     Respiramos porque expirámos e expirámos porque não cabia mais ar. Mais nenhum.
     É cíclico.
     É podre.
     É nojento.
     É o que eu não sei se é ou não, por não saber quem sou e não me mostrar porque me mostro.
     Sois porque quero que sejais, mesmo que o espaço seja demais para haver encaixe na porca tapada pelo parafuso sem rosca.
     Nem máquinas somos!, e fomos nós que as fizemos!
     Nem bichos somos!, e somos nós que os comemos!
     Nem face temos!, e nem máscara há para cair!
     Nem nojo meteis, porque me sois o que sois:
     Nada.


Tiago José Chaves
08/05/2013
01:23


terça-feira, 23 de abril de 2013

Natural



     Mas com que quereis vós acabar? A que quereis vós colocar término infinito? A que vos vergais para terem tamanha pretensão?
     Como podereis vós aguardar um momento oportuno com a audiência oportuna e os argumentos oportunos no arregaçar das vossas mangas quando, no final, as vestes serão lavadas e o que era oportuno foi fugazmente aceite, tal a trivialidade que assume um sério problema solucionado?
     Solução ignorada.
     Porque tem que ser assim.
     A massa controlada nada mais será que, cedo ou tarde, massa frustrada.
     A solução reside no mesmo lugar em que a não há. São meras ficções reais que idealizamos fisicamente para que os nossos sentidos repousem na poltrona do engano acertado.
     Se avançamos no recuo à primitivação, se recuamos no avanço duma bomba atómica que nos põe o átomo em turbilhão,… deixemo-nos ir! Deixemo-nos encontrar o descrito divino, usualmente tratado com caracteres de imposição, porque a vontade do Homem se impõe com sobreposições, altas e baixas, nunca ultrapassando a fossa que sempre foi a nossa natureza.
     Porque somos assim: naturais.
     Assim, bons de podridão. Podres de bondade. Tudo pelo melhor que piora, piorando melhorias.
     É natural.



Tiago José Chaves
23/04/2013
16:38

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Aparentemente


Enquanto roço os dedos na face e sinto a pelugem áspera que o rosto de um homem deve ter, percorrem-me imagens que não combinam com os dedos a roçarem na face com a pelugem áspera que um homem deve ter.
     Enquanto pestanejo gravemente e sinto cada pulsação do meu coração sob controlo como um homem deve controlar, percorrem-me vozes que rejeitam a combinação entre o pestanejar grave e a pulsação cardíaca controlada que um homem deve ter sob controlo.
     Enquanto sinto a rigidez do meu corpo sólido como afirmação da minha presença como um homem deve assumir, assumo a fraqueza que tenho ao não ter rigidez no meu corpo sólido para afirmar a minha presença como um homem deve assumir.
     Enquanto me prestarem atenção, enquanto eu vos pedir atenção e vós nem questão colocardes, eu vou usar-vos, abusar-vos, manusear-vos como boas marionetas que sois.
Porque o sois, na eterna perversidade da minha mente, na eterna incorrecção que o meu pensamento tem, no infindável imundo meio em que me forço a entrar e permanecer.
E mais imundo quero eu ser rebaixando-me a vós. Tendo fios que puxais e me movem.
Aparentemente.


Tiago José Chaves
19/04/2013
12:28
     

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Retrato


Está tudo no retrato
Como podes ver.
Se sabes ver
É contigo.

Porque eu já nem sei
Se sei que saber o é.

É tudo tão relativo.

Conta-me como foi.
Conta-me se ainda te dói
Lembrares que por lá vagueaste,
Nesse sítio
Que a mim me assombra.

Mas é a tua sombra,
Essa sombra que ilumina
O canto mais escuro
Que o meu corpo tem.

Está em sintonia,
Como sinfonia
De gritos.
De gemidos.

Essas quatro paredes
Com um só retrato
De vidro estilhaçado
Que me separa da dor.

Só dessa dor.

Dá-me um pouco disso
P’ra me enganar também
E saber como é
Viver no engano,

Que de estar enganado
Que de querer ser enforcado
(Pela corda que sufoca e mata o amargo)
Vem o bom arrependimento.


Tiago José Chaves
11/08/2011

sábado, 6 de abril de 2013

Peixes (in "Memória de Peixe")


   A encenação que nos rodeou. Quantas verdades nos foram mostradas. Quantas magnificências verbalizadas.
    Tivemos terra. Quisemos mar. Porque queríamos mais. E chegámos lá, penetrando ondas e marés, onde não havia firmeza, mesmo sendo para nós puro alcatrão. Era chão para os nossos pés.
    Deixámo-nos levar, à beira da queda vertiginosa que tantos viam. O mar parecia finitamente infindável.
    A água não precisava mais de nós, porque os nós com ela haviam sido atados. Todas as ondas que nos salgaram o percurso até então desconhecido, acalmaram à nossa passagem.
    Porque somos magníficos.
    Porque fomos magníficos.
    Porque desviámos precipícios.
    Porque nos sufocámos.
    Porque nos pendurámos.


Tiago José Chaves
06/03/2013
21:38





sexta-feira, 29 de março de 2013

Jus


      O andar desajeitado de quem não sabe onde vai assentar os pés. O olhar desconfiado de quem não sabe onde pode parar o olhar. O balbuciar temeroso de quem tem medo de se pronunciar.
     Mostraste-te assim, como um ser sem local e tempo onde se pudesse encaixar devidamente. De todo, uma peça que sobrou num puzzle sem defeito. Um jogo que se joga com falhas que não se mostram.
     A timidez de quem se quer mostrar, a despreocupação de quem se não deixa de preocupar, o pestanejar de incredulidade que tinhas que te aceitar.
     Porque eras tu.
     Despiste-te em mim.
     Conheci cada canto teu, de tão imundo estar o meu pensamento. Vagueei em ti sem permissão de deuses que te possuem e de quem não abres mão. E não carregas tu cruz alguma que não a tua.
     Como flor que resiste no mais gélido frio, como gelo que não derrete sob ameaça do Sol, fui-te vendo e desvendando, sem te arrancar nem derreter.
     Arrancaste-te.
     Derreteste-te.
     Não deixarás de ser a peça a mais do meu puzzle, um enigma por resolver. Não deixarás de colocar questões sem sequer te pronunciares. Porque nasceste com o brilho que tens e no qual nego crença, no qual me vingo quando o manto negro me cobre.
     Que fazes tu aqui?
     Que queres tu de mim?
     Porque caminhaste sem jeito?
     Porque olhaste desconfiada?
     Porque balbuciaste?
     Porque te mostraste?
     Porque és tu?
     Porque tens cantos?
     Porque possuis encantos?
     Porque tudo em ti não há palavra que faça jus?


Tiago José Chaves
29/03/2013
03:17

sexta-feira, 15 de março de 2013

Esquece que te lembras


     Lembra-te como nasceste.
     Lembra-te como vieste.
     Lembra-te do colo.
     Lembra-te de chorares por mãos que te soubessem agarrar, que te abanassem, que te embalassem, que dessem peito para consolo, para satisfação que nem sequer entendias.
     Lembra-te do esforço, aquele que fizeste para deixares de gatinhar, que fizeste para ouvir e balbuciar, que te foi feito para deixares de mamar.
     Lembra-te das palmas quando sopravas velas, do sabor do bolo que tanto gostavas, do embrulho que te reluzia nos olhos.
     Lembra-te da insensatez das correrias. Quantas vezes as fizeste. Das primeiras leituras, do conhecimento que te deu amarguras, das tuas formosuras que encantaram os olhos de outrem.
     Lembra-te de quereres repetir a tua história.
     Esquece quem sou.
     Esquece quem somos.
     Esquece os risos e saltos e insolências, esquece cheiros, cores e paciências. Esquece onde te deitas e quem te deitou, esquece quem mais de ti cuidou.
     Esquece-te das palavras que leste e ouviste, do teu próprio toque e da facilidade de andares por aí a acenar a quem acenavas.
     Esquece o sangue.
     Esquece as lágrimas.
     Esquece os colos.
     Esquece os cheiros.
     Esquece a luz.
     Esquece que te lembras.


Tiago José Chaves
14/03/2013
17:00

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Son(h)o


     E sento-me.
     Repouso o corpo pesado e pouso o pensamento que me calca e me vinca a pele e as entranhas. Cambaleio no meu cansaço para um repouso que há já muito que me não encontrava porque dele me escapei. Deixei que a fadiga se apoderasse de mim e deturpasse cada informação adicional que me fosse dada ao receptáculo.
     Deito-me.
     Descanso.
     Tenho sono.
     O sono tem-me.
     E teima em não me deixar. Tanto que me incomoda e não mais quero dormir. Assusta-me demais. Parecia querer apoderar-se do tempo que partilhamos e que ele tão bem manipula. Que me deixa sentir quedas vertiginosas, que me mostra monstros que neguei, que me abranda quando tento fugir, que me foge quando o tento agarrar e me faz ser agarrado por sombras que conheço, por nelas me ter deixado perecer.
     Doce sonho, que me sois tão familiar, que me sois tão velho e respeitado, que deteis poder absoluto porque a minha mente possuís! Que me forçais dirigir-me a vós com formalidades e cordialidades porque sois agro e doces e me ajudais, libertais e deteis, no tempo, no espaço e em mim.
     Sois difícil de verbalizar. Sois tanto. Sois pai e mãe, irmão e irmã, sois tio e tia, primo e prima, sois avós, como a nós não enganais, que sois eu próprio.
     As correntes e cadeados com que me prendestes, que me deixaram marcas nos pulsos e nos pés, as chicotadas que me destes e deram, as cuspidelas que me molharam o rosto e os olhares de esguelha que me negaram: fostes tu.
     Sempre tu.
     Sempre eu.
     Sonho, porque me agarraste? Porque desviaste o sono e negaste o descanso ao cansaço que a minha pele carrega? Porque me não abafas de vez e me fazes filho da terra de novo? Porque me atormentas? Porque queres imundo ser como eu? De que te valho?
     Deixa-me dormir.


Tiago José Chaves
21/02/2013
00:17