sexta-feira, 15 de março de 2013

Esquece que te lembras


     Lembra-te como nasceste.
     Lembra-te como vieste.
     Lembra-te do colo.
     Lembra-te de chorares por mãos que te soubessem agarrar, que te abanassem, que te embalassem, que dessem peito para consolo, para satisfação que nem sequer entendias.
     Lembra-te do esforço, aquele que fizeste para deixares de gatinhar, que fizeste para ouvir e balbuciar, que te foi feito para deixares de mamar.
     Lembra-te das palmas quando sopravas velas, do sabor do bolo que tanto gostavas, do embrulho que te reluzia nos olhos.
     Lembra-te da insensatez das correrias. Quantas vezes as fizeste. Das primeiras leituras, do conhecimento que te deu amarguras, das tuas formosuras que encantaram os olhos de outrem.
     Lembra-te de quereres repetir a tua história.
     Esquece quem sou.
     Esquece quem somos.
     Esquece os risos e saltos e insolências, esquece cheiros, cores e paciências. Esquece onde te deitas e quem te deitou, esquece quem mais de ti cuidou.
     Esquece-te das palavras que leste e ouviste, do teu próprio toque e da facilidade de andares por aí a acenar a quem acenavas.
     Esquece o sangue.
     Esquece as lágrimas.
     Esquece os colos.
     Esquece os cheiros.
     Esquece a luz.
     Esquece que te lembras.


Tiago José Chaves
14/03/2013
17:00

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