quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Jogo

     Talvez fosse melhor interpretar tudo isto como um jogo. E são vários os jogadores que se vêm. Uns de cartas, outros de dados, outros apenas jogam porque vêm os outros jogar… Não sei até que ponto não será mesmo assim.
     Parece-me que tudo tem a ver com ganhar ou perder, perder e ganhar ao mesmo tempo, sem nunca ganhar nem perder nada. Fica tudo estancado, com uma aceleração incrível! Tudo se mexe e remexe, tudo se aposta e rouba e espreita, tudo se ganha antes de se perder ou se perde antes de ganhar.
     Ganhar.
     Perder.
     E com mais vigor ainda se deitam as cartas e os dados nas mesas em veludo verde. Com vigor se chupam os cigarros e se sugam os líquidos dos cálices. A vontade apodera-se do jogo, o jogo apodera-se do jogador… O jogador, fraco, um mero figurante do jogo, um mero elemento que atira à mesa e que julga que o veludo lhe vai tornar tudo mais macio, que julga ter controlo de algo que se rege meramente por probabilidades que são contáveis e batoteiras,… Esse que ganha ou que perde, não será mais que isso: um vencedor ou um perdedor.
     Tudo tão controlável para ele! Tudo tão alcançável!
     Recolhe as cartas, rola os dados, joga o jogo, aposta bem alto, faz mais um bluff ou bufa nos dados, que eles acreditam que ou tens ou não tens sorte. Porque és um jogador.
     E agora passas as mãos na cabeça. Porque ganhaste tanto! Perdeste muito, mas ganhaste tanto!
     Mas perdeste muito. E não ganhaste nada. Perdeste tudo e ganharam-te tudo. E eles são jogadores como tu. Eles passam as mãos no veludo e são iludidos pelo seu macio. Eles ganham e perdem ou ganham ou perdem ou perdem e não ganham.
     Eles são como tu, que não és como ninguém. Porque ganhaste sozinho. E assim perdeste. Mas não importa! Porque ganhaste! Foste vencedor e sentiste isso como se tivesses sido tu!
     E foste tu!
     Não interessa mesmo, porque lhe tiveste o sabor. E o dissabor. E o sabor do dissabor. E o dissabor do sabor.
     Quanto perdeste quando ganhaste?
     Quanto ganhaste quando perdeste?
     Quanto ganhaste quando ganhaste?
     Quanto perdeste quando perdeste?
     Quantos mais ganharão por ti?
     Quantos mais perderão por ti?
     Quantos mais jogarão contigo?
     Ganhar ou perder é perder ou ganhar.



Tiago José Chaves
17/10/2013

01:26

domingo, 13 de outubro de 2013

Em tiras


     Todos esses erros em que te vi, vi-te neles.
     Toda a passada que te vi dar, deste-a.
     Todo o movimento que te vi executar, executaste-o.
     E nem pela medida mais pequena que possam encontrar, a medida do que fizeste era mensurável.
     Tão grande esse teu feito!
     Tão grandes esses teus efeitos!
     Tão desengonçadamente organizado e medido é esse teu jeito de ser!
     Tão delicioso é aproveitar a delícia da espontaneidade meticulosamente calculada e medida!
     Tão frágil te tornas deitado no chão.
     Tão frio se torna esse chão que nem dá calor suficiente para que possas apodrecer. Nem o tempo te dá tempo para te findares. Nem esse teu medo de ti se quer alimentar.
     Decerto te alimentam de muitas outras coisas. Daquelas que não despendes… aquelas estratégias, que te levam a roubar um pouco daqui e dali e te mostram diferente ali e aqui. E não só dessas coisas.
     Essa basicidade não poderia ficar por aí, pois o básico considerado por diferenciadas mentes de igualdades não se deixaria ser excluído.
     Tens que te alimentar!
     Tens que repousar!
     Tens que te dar para que te seja dado em troca, mas sempre sem dares ponta de ti. Isso seria, decerto, pedir demais!
     Todos esses preciosismos em que te escondeste e ninguém te quis ver, eu vi-te neles.
     Todos os arranjos que nem sabias arranjar, eu vi-te contornar.
     Todas as mãos que tu querias para te ampararem, eu puxei-as para que te amparassem.
     Todas as vozes que te pronunciaram, souberam de ti pela minha voz.
     Todas as tuas mentiras, fui eu que as escrevi.
    


Tiago José Chaves
14/10/2013

00:18

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Semelanças"

  
     Adormecido.
     Como qualquer outro ser que se deixa levar para o incógnito do sono.
     De um sonho.
     De muitos outros sonhos lavados com água e sabão, à pressa, sem saber porque é que a pressa assim de nós se apodera.
     Instala-se a correria e a correr marcamos o andamento da luz que se mostra e se esconde uma vez de cada vez.
     Parece uma corrida.
     E corremos como doidos e com doidos, quase de mãos dadas, como se tivéssemos todos um mesmo propósito e como se a pele e a carne que nos reveste fosse finalmente pretexto suficiente para que simplesmente soubéssemos como deixaríamos ficar a nossa pele com outra pele.
     Peles frias, húmidas, gretadas, pálidas, sujas de um encardido que a ninguém incomoda.
     Peles em mãos que se dão com um toque leve umas às outras, com medo de se tocarem ou de serem vistas quando se tocam.
     Mãos abertas, apalpando no ar o ponto ideal onde se possam agarrar. Um vazio tão palpável quanto qualquer berma de qualquer coisa que lhe aparecesse. Uma qualquer saliência.
     Assente com os pés, meios desalinhados, meios forçados a sustentarem um peso qualquer, que se balanceia de um lado para o outro, sem saber bem se é para um ou para outro.
     Assim nos vejo, sem ordem, sem distâncias medidas nem alturas caídas, sem suporte para os pés nem pés que nos suportem.  
     Sem força de mãos ou força que preste.
     Sem berma quieta ou quietude que o seja.
     Sem que peles se toquem.
     Sem que toques em mim.
     Sem pés numa corda.
     Sem corda.
     Para cada berma, sua vertigem.
     Para cada vertigem, nada semelhante.
    


Tiago José Chaves
08/10/2013
00:25