quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Identidade

     Quantas vezes te sentiste desamparado?
     Quantas vezes sentiste que, a cada passada, o chão ficava cada vez mais mole, cada vez mais líquido, cada vez mais disperso e sem beiras onde te pudesses agarrar, cada vez mais solto da tua sola… cada vez menos chão?
     Quantas vezes caíste quando abrias os olhos?
     Quantas vezes a queda abrandou quando os fechavas?
     Quantas vezes os abriste?
     Quantas vezes os fechaste?
     Quantas vezes te lembraste como era estar assim?
     Quantas vezes bateste com a cara no chão com tanta força que, saber que houve amparo, te soube bem?
     Quantas vezes te soube bem?
     Quantas vezes soubeste distinguir um chão do outro?
     Por mais que me esforce a explicar, não há explicação.
São meras desculpas que uso para encobrir todas as minhas falhas. Todas essas falhas me fazem como sou e permitem que me vejam e me oiçam. Que me vejam sem me verem e me oiçam sem me ouvirem. Que a imagem mostra um homem fácil de partir mas com algo mais para mostrar que pedaços estilhaçados. Que o som vos soa a um homem com dons e crenças que são tão firmes como a imagem que a tudo nele faz jus.
     Não se deixem enganar por sorrisos bem aplicados nem por vocábulos embelezados. Não se deixem levar pela prosa que vos cheira a tinta verdadeira, derramada pelas mãos desse ser. Dessa angustiante forma de vida que bem pode entrar e sair de vós da mesma forma que sai e que entra em quem quer que seja. E é fácil para ele fazer tudo isso.
     Ele está cada vez mais desamparado, cada vez mais debilitado das suas capacidades. De qualquer delas. Ele sabe que resultaram em pequenas proporções e nem sequer lhe dá gozo que se alarguem.
     Ele baixou os braços de vez e nada espera porque o breve tempo que por ele passou, passou-o. E já nem no tempo ele consegue acreditar.
     Ele nem levanta o rabo da cama por se ter rendido aos prazeres do descanso, que bem ele sabe que sabe bem por o não merecer e que o reclama com todo o direito.
     Ele choraminga por tudo e por nada, mas já nem faz como dantes, que optava pela facilidade de atirar o saco da culpa para cima de quem tivesse ombros para lhe suportar o peso. A ele já não lhe pesa a culpa e de mais nenhuma ele se livrou.
     Ele fazia-se de coitado, falava em precipícios e cordas e portas e camas e tempos e memórias e todas essas coisas sem nexo algum, sem hoje sequer olhar para nada em concreto e se agarrar ao que quer que seja para brilhar no escuro dele para que o vejam como um ser indefeso que precisa de um aconchego físico ou verbal, que lhe faça sentir um toque de conforto ou que o deixe ouvir uma palavra de compreensão.
     Ele é um completo mentiroso que se aproveita das vossas fragilidades para conseguir reflectir em vós toda a dor e sofrimento ou qualquer outra experiência pela qual esse tal vos tenha dito que passou.
     Ele é um oportunista que vos apanha de baixa guarda e vos faz crer que ele é o que é, sabendo ele bem que não há identidade para um ser sem nome a atribuir.
     Ele é a chave para uma porta sem fechadura, ele é o que esta tinta vos diz que ele é. Ele é tudo e mais alguma coisa. E houvesse mais alguma coisa que ele pudesse ser, que vos garanto que ele sê-lo-ia.     
     Ele é um beco sem saída.
     Ele é uma saída para qualquer beco.
     Ele é ferro e água.
     Ele é acto e palavra.
     Ele é tinta e papel.
     Ele é quem ele não é.



Tiago José Chaves
27/11/2013

01:33