Quantas
vezes te sentiste desamparado?
Quantas
vezes sentiste que, a cada passada, o chão ficava cada vez mais mole, cada vez
mais líquido, cada vez mais disperso e sem beiras onde te pudesses agarrar,
cada vez mais solto da tua sola… cada vez menos chão?
Quantas
vezes caíste quando abrias os olhos?
Quantas
vezes a queda abrandou quando os fechavas?
Quantas
vezes os abriste?
Quantas
vezes os fechaste?
Quantas
vezes te lembraste como era estar assim?
Quantas
vezes bateste com a cara no chão com tanta força que, saber que houve amparo,
te soube bem?
Quantas
vezes te soube bem?
Quantas
vezes soubeste distinguir um chão do outro?
Por mais
que me esforce a explicar, não há explicação.
São meras desculpas que uso para encobrir todas as
minhas falhas. Todas essas falhas me fazem como sou e permitem que me vejam e
me oiçam. Que me vejam sem me verem e me oiçam sem me ouvirem. Que a imagem
mostra um homem fácil de partir mas com algo mais para mostrar que pedaços
estilhaçados. Que o som vos soa a um homem com dons e crenças que são tão firmes
como a imagem que a tudo nele faz jus.
Não se
deixem enganar por sorrisos bem aplicados nem por vocábulos embelezados. Não se
deixem levar pela prosa que vos cheira a tinta verdadeira, derramada pelas mãos
desse ser. Dessa angustiante forma de vida que bem pode entrar e sair de vós da
mesma forma que sai e que entra em quem quer que seja. E é fácil para ele fazer
tudo isso.
Ele está
cada vez mais desamparado, cada vez mais debilitado das suas capacidades. De
qualquer delas. Ele sabe que resultaram em pequenas proporções e nem sequer lhe
dá gozo que se alarguem.
Ele baixou
os braços de vez e nada espera porque o breve tempo que por ele passou,
passou-o. E já nem no tempo ele consegue acreditar.
Ele nem
levanta o rabo da cama por se ter rendido aos prazeres do descanso, que bem ele
sabe que sabe bem por o não merecer e que o reclama com todo o direito.
Ele
choraminga por tudo e por nada, mas já nem faz como dantes, que optava pela
facilidade de atirar o saco da culpa para cima de quem tivesse ombros para lhe
suportar o peso. A ele já não lhe pesa a culpa e de mais nenhuma ele se livrou.
Ele
fazia-se de coitado, falava em precipícios e cordas e portas e camas e tempos e
memórias e todas essas coisas sem nexo algum, sem hoje sequer olhar para nada
em concreto e se agarrar ao que quer que seja para brilhar no escuro dele para
que o vejam como um ser indefeso que precisa de um aconchego físico ou verbal,
que lhe faça sentir um toque de conforto ou que o deixe ouvir uma palavra de
compreensão.
Ele é um
completo mentiroso que se aproveita das vossas fragilidades para conseguir
reflectir em vós toda a dor e sofrimento ou qualquer outra experiência pela
qual esse tal vos tenha dito que passou.
Ele é um
oportunista que vos apanha de baixa guarda e vos faz crer que ele é o que é,
sabendo ele bem que não há identidade para um ser sem nome a atribuir.
Ele é a
chave para uma porta sem fechadura, ele é o que esta tinta vos diz que ele é.
Ele é tudo e mais alguma coisa. E houvesse mais alguma coisa que ele pudesse
ser, que vos garanto que ele sê-lo-ia.
Ele é um
beco sem saída.
Ele é uma
saída para qualquer beco.
Ele é
ferro e água.
Ele é acto
e palavra.
Ele é
tinta e papel.
Ele é quem
ele não é.
Tiago José Chaves
27/11/2013
01:33