Que queres que te diga?
Há dias que me irrita a diferença. Mas que queres que te diga?
Não me vou levar pelas irritações. Aliás, deixo-me levar por elas, de vez em
quando, mas isso não faz de mim alguém irritado. Há dias que me aborreço com
tudo isto, que tenho vontade de nem sequer olhar para mais lado nenhum. Há
olhos em todo lado. Olhos que parecem querer ouvir. Para quê querer dar
utilidade ao que é inútil? Mas que queres que te diga? Eu não sei ao certo se
será assim tão inútil. Mas aborrece-me na mesma.
Eu olho para tudo aquilo que posso olhar. Tento ser o mais
atento possível. Na maioria das vezes tento não sentir a exigência dos
exigentes, porque o somos, indubitavelmente. Mas consigo ver que anda quase
tudo de lupa na mão, à procura, a tentar encontrar, a encontrar, a perder de vista
ou a nem sequer procurar. E o que hei-de fazer? Vejo muita gente. Gosto de
estar com muitas pessoas. Não gosto de me sentir sozinho. Mas sinto-me tão
sozinho como qualquer outra pessoa. E não, não tenho nenhum truque na manga ou
tesouro escondido que tema roubarem. Nada disso. Só não sei o que te dizer
quando há tanta coisa para falar. Só não sei por onde começar porque não vejo começo,
não vejo ponta a pavio, não vejo sequer um desafio porque não há.
Portanto, deixa-me que te diga que descanses, que te encostes
para trás, que não te apoquentes agora porque estás bem aqui. Tens tempo para
continuar a ver quem queres ver e ouvir o que queres ouvir. Tens tempo para discutires
essas discussões que para aí vêm e para te irritares, ou outra coisa qualquer... E seres essa roda livre
que sempre foste. Ninguém te está a pôr nenhum travão. Ninguém te está a querer
bloquear. Isto não é uma cilada, não há esquemas. Só quero que te encostes, que
te enterres onde te quiseres sentar ou deitar. Que respires bem fundo e que
amoleças esses músculos.
Mais nada.
Tiago
José Chaves
03/06/2015
02:14