quinta-feira, 9 de abril de 2015

Algures

     Há sítios para os quais nem sequer devíamos olhar. O seu vislumbre é incómodo.
     Há sítios que simplesmente podiam cessar de existir. Eles próprios apelam a uma estranheza que nos faz crer que somos doentes. Que somos doentios.
     Há sítios que nos querem desesperadamente. Querem-nos por não saberem ao certo o que realmente querem. Querem-nos por não terem mais que querer. É uma qualquer melodia hipnótica que ludibria por completo o mais sóbrio ser.
     Tu tiveste desses sítios.
Tu estiveste de pé neles.  
Tu deitaste-te neles. Sei que não foi singular. Sei que foram várias as vezes que neles estiveste de pé, que te deitaste. Por várias vezes, tiveste-te nesses sítios.
Enquanto te vejo por aí, sem ter qualquer necessidade de usar a minha visão, sinto-me tonto. Sinto uma vertigem, constante. Sinto uma perda de equilíbrio. Sinto-me completamente drogado, enganado. Duvido da verdade e cada vez mais desconfio de mentiras, que sei que me desequilibram, que me deixam tonto. Que me deixam bem alto, de onde olho de baixo e sinto essa vertigem constante. Sinto a presença dum colosso, ali, à minha beira. Uma sombra que se assombra a si própria.
Tenho passado por aqui inúmeras vezes. Sei quão tentadora é a dor de olhar à volta, de tentar perceber o que aqui aconteceu, de me enjoar com a tontura. Sei que a certo ponto não poderei aqui voltar, que me será negada a oportunidade de me calcar ainda mais em desgosto.
Saboroso.
Detestável.
Não estou bem aqui. Se pelo menos me sentisse só, como sei que não gostas de te sentir…
Mas será sempre inconclusivo. Sempre uma afirmação reticente. Soluçada. Amedrontada de se afirmar.
Consegues dizer-me o que realmente queres? Consegues ter consciência de quem és para ti? Consegues ver-te com alguém com quem não queres estar? Consegues continuar a viver numa farsa?
Consegues ficar aí, nesse sítio, para o qual não consigo olhar?
Consegues não te repetir ao longo da história?
Não me sinto bem, aqui, assim. O que quer que seja que a proximidade traz, é passageiro. É um engano. E ver de longe, de cá de baixo, proporciona diferentes perspectivas. Mas continua a ser incómodo.
Fico aqui, porque aqui não posso ficar melhor.
Fico aqui porque aqui não pioro.
Não me chames.


Tiago José Chaves
09/04/2015

13:55

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