terça-feira, 23 de abril de 2013

Natural



     Mas com que quereis vós acabar? A que quereis vós colocar término infinito? A que vos vergais para terem tamanha pretensão?
     Como podereis vós aguardar um momento oportuno com a audiência oportuna e os argumentos oportunos no arregaçar das vossas mangas quando, no final, as vestes serão lavadas e o que era oportuno foi fugazmente aceite, tal a trivialidade que assume um sério problema solucionado?
     Solução ignorada.
     Porque tem que ser assim.
     A massa controlada nada mais será que, cedo ou tarde, massa frustrada.
     A solução reside no mesmo lugar em que a não há. São meras ficções reais que idealizamos fisicamente para que os nossos sentidos repousem na poltrona do engano acertado.
     Se avançamos no recuo à primitivação, se recuamos no avanço duma bomba atómica que nos põe o átomo em turbilhão,… deixemo-nos ir! Deixemo-nos encontrar o descrito divino, usualmente tratado com caracteres de imposição, porque a vontade do Homem se impõe com sobreposições, altas e baixas, nunca ultrapassando a fossa que sempre foi a nossa natureza.
     Porque somos assim: naturais.
     Assim, bons de podridão. Podres de bondade. Tudo pelo melhor que piora, piorando melhorias.
     É natural.



Tiago José Chaves
23/04/2013
16:38

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Aparentemente


Enquanto roço os dedos na face e sinto a pelugem áspera que o rosto de um homem deve ter, percorrem-me imagens que não combinam com os dedos a roçarem na face com a pelugem áspera que um homem deve ter.
     Enquanto pestanejo gravemente e sinto cada pulsação do meu coração sob controlo como um homem deve controlar, percorrem-me vozes que rejeitam a combinação entre o pestanejar grave e a pulsação cardíaca controlada que um homem deve ter sob controlo.
     Enquanto sinto a rigidez do meu corpo sólido como afirmação da minha presença como um homem deve assumir, assumo a fraqueza que tenho ao não ter rigidez no meu corpo sólido para afirmar a minha presença como um homem deve assumir.
     Enquanto me prestarem atenção, enquanto eu vos pedir atenção e vós nem questão colocardes, eu vou usar-vos, abusar-vos, manusear-vos como boas marionetas que sois.
Porque o sois, na eterna perversidade da minha mente, na eterna incorrecção que o meu pensamento tem, no infindável imundo meio em que me forço a entrar e permanecer.
E mais imundo quero eu ser rebaixando-me a vós. Tendo fios que puxais e me movem.
Aparentemente.


Tiago José Chaves
19/04/2013
12:28
     

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Retrato


Está tudo no retrato
Como podes ver.
Se sabes ver
É contigo.

Porque eu já nem sei
Se sei que saber o é.

É tudo tão relativo.

Conta-me como foi.
Conta-me se ainda te dói
Lembrares que por lá vagueaste,
Nesse sítio
Que a mim me assombra.

Mas é a tua sombra,
Essa sombra que ilumina
O canto mais escuro
Que o meu corpo tem.

Está em sintonia,
Como sinfonia
De gritos.
De gemidos.

Essas quatro paredes
Com um só retrato
De vidro estilhaçado
Que me separa da dor.

Só dessa dor.

Dá-me um pouco disso
P’ra me enganar também
E saber como é
Viver no engano,

Que de estar enganado
Que de querer ser enforcado
(Pela corda que sufoca e mata o amargo)
Vem o bom arrependimento.


Tiago José Chaves
11/08/2011

sábado, 6 de abril de 2013

Peixes (in "Memória de Peixe")


   A encenação que nos rodeou. Quantas verdades nos foram mostradas. Quantas magnificências verbalizadas.
    Tivemos terra. Quisemos mar. Porque queríamos mais. E chegámos lá, penetrando ondas e marés, onde não havia firmeza, mesmo sendo para nós puro alcatrão. Era chão para os nossos pés.
    Deixámo-nos levar, à beira da queda vertiginosa que tantos viam. O mar parecia finitamente infindável.
    A água não precisava mais de nós, porque os nós com ela haviam sido atados. Todas as ondas que nos salgaram o percurso até então desconhecido, acalmaram à nossa passagem.
    Porque somos magníficos.
    Porque fomos magníficos.
    Porque desviámos precipícios.
    Porque nos sufocámos.
    Porque nos pendurámos.


Tiago José Chaves
06/03/2013
21:38