sexta-feira, 19 de abril de 2013

Aparentemente


Enquanto roço os dedos na face e sinto a pelugem áspera que o rosto de um homem deve ter, percorrem-me imagens que não combinam com os dedos a roçarem na face com a pelugem áspera que um homem deve ter.
     Enquanto pestanejo gravemente e sinto cada pulsação do meu coração sob controlo como um homem deve controlar, percorrem-me vozes que rejeitam a combinação entre o pestanejar grave e a pulsação cardíaca controlada que um homem deve ter sob controlo.
     Enquanto sinto a rigidez do meu corpo sólido como afirmação da minha presença como um homem deve assumir, assumo a fraqueza que tenho ao não ter rigidez no meu corpo sólido para afirmar a minha presença como um homem deve assumir.
     Enquanto me prestarem atenção, enquanto eu vos pedir atenção e vós nem questão colocardes, eu vou usar-vos, abusar-vos, manusear-vos como boas marionetas que sois.
Porque o sois, na eterna perversidade da minha mente, na eterna incorrecção que o meu pensamento tem, no infindável imundo meio em que me forço a entrar e permanecer.
E mais imundo quero eu ser rebaixando-me a vós. Tendo fios que puxais e me movem.
Aparentemente.


Tiago José Chaves
19/04/2013
12:28
     

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