Na verdade, nunca fui muito de realçar nada que me tenha
acontecido como sendo deveras o que melhor vivi. No entanto, já o fiz. Já tive
direito ao engano inocente de quem se engana sem saber que se enganou.
Do mesmo modo, nunca apontei nenhuma infelicidade como se fosse
a mais catastrófica de todas. Pelo menos, nenhuma que tenha permanecido como o
mais infeliz evento de todos. Mas sei que já o fiz.
Não posso deixar de achar uma comédia em todas essas afirmações
que fiz. Todas. Não muitas. Algumas. Mais que uns fizeram, menos que outros. E não
o fiz por me julgar mais ou menos confiante que qualquer outro indivíduo. Quero
crer, como acredito, neste momento, que o fiz por julgar ser certo, para além
de adequado. Para além duma espécie de organização abstracta do que ocupa o seu
lugar devido.
Sinto-me cansado. Um cansaço de estar num ponto intermédio. No meio
de uma ponte. Há cansaço em mim por observar os dois extremos da ponte. O seu
começo e o seu fim. Dum lado ou do outro. Sei que são dois começos e dois fins.
E estou ali, no meio, sem saber para qual dos começos ou fins me dirigir. Estou
completamente estagnado. Consegui com isso um descanso momentâneo para a
responsabilidade inerente à decisão. Não afirmo qualquer felicidade como sendo
a superior de todas as felicidades que tive. E o mesmo acontece para o seu
inverso. Toda esta pacatez, a calma, que sei que senti, traz-me neste momento o
arrependimento, a sensação de perda sem retrocesso ou encobrimento com o que
quer que possa ser um ganho. Ganhei, na perda, mais perda. Ganhei uma acalmia,
a perda dessa calma. Como se qualquer ganho assinasse uma perda.
Rótulos.
Esta existência, esta forma de vida, não me mostra nada. Não tenho
crença que me mova e não confio na minha confiança. Será possível viver com
medo à vida?
Há falibilidade na beleza, por mais que se afirme a sua
existência. Há certeza no que é certo e há corrupção nas certezas. Apenas por
falta de crença no que é certo. O que estagna, assusta, deteriora-se, apodrece.
O que assusta, o que se deteriora, o que apodrece, afugenta. E eu assusto-me
comigo. Fujo de mim. O medo de não me ver mais é nulo. O medo de me continuar a
ver assusta deveras.
Não quero mais dificuldades. Mas desistir é fácil demais. Resistir
à desistência não é difícil. Combater dificuldades, sim, é difícil. Não o
quero. Sei, portanto, que permanecerei no meio desta ponte. No ponto estagnado.
Não há desilusão que me faça arrepender nem ilusão que me tire daqui.
Sei pouco com que contar.
Conto com o vento.
Tiago
José Chaves
26/11/2014
15:36