Sinto-me
até capaz de escrever nas costas da folha de papel. Sinto-me capaz de andar de
costas e de tocar numa guitarra desafinada. Sinto-me capaz de contrariar a
ordem, a regra, a norma. Tudo isso que é suposto ser feito como é feito.
Sinto que
faço tudo isso, como se dono dessas coisas fosse.
Mas sinto-me
dono de nada. Não possuo a capacidade de não escolher ordeiramente as palavras que
me proíbo de pronunciar. Não as pronuncio, nem de frente, nem de costas. São
demasiado surpresas. Demasiado novas, na ordem que as imagino, para as usar num
contexto tão desorganizado. Pareceriam, por completo, um grito de desespero que
seria facilmente audível. Facilmente ensurdecedor.
Prefiro dar
um nó na língua, revirar os olhos ao pensamento… pensar que não penso, para
saber que não me tento. Prolongar um pouco mais esta nova angústia, que se acresce
às outras, mas que se assume intolerável.
Tolero.
Deixo que
se abafe, deixo que vá aparecendo em conta certa. Deixo-a na ordem certa. Numa
que consiga manipular.
Ponho uma
surdina no grito, arranco a página do caderno e tapo a caneta.
Tiago José Chaves
22/01/2014
21:01
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