segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Peso

      Mesmo esguias, mesmo com galhos que nem o peso de uma pequena ave parecem aguentar, mesmo com a cor escura de algo que não se deixa envolver por coisa qualquer, estas árvores, estes seres, deixam-se cobrir pelo branco da neve.
     Saberemos nós, em circunstância alguma, que o frio que as envolve é aceite? Será que alguma vez a árvore se quis sacudir? Será até que a neve que as cobre as queria cobrir? Será que, apenas porque se não pronunciam, estas duas formas, filhas do céu e da terra que nos parecem aceitar, concordam com o seu encontro?
     Foi fruto do acaso. Nem um nem outro previram. Como o poderiam ter feito? Sem sinal algum que nos possa ser dado à racionalidade, como poderão a árvore e a neve aceitar-se ou negar-se? Como posso considerar sequer tal questão?
     Sei porquê.
     Agrada-me a maneira como usamos metáforas para justificarmos o encontro entre o todo e o Homem. Adoro suposições com comparações para o alcance do cerne de questões, quando tudo isso não é mais que fruto de acasos.
     E nós? Qual a nossa atitude perante tais acontecimentos? Como agimos e reagimos ao estranho?
     Tamanhas ambiguidades nos consomem. A repulsa antes da aceitação. Ou a aceitação antes da repulsa. Cada uma em consequência da outra, que se fazem completar sem sentido rigorosamente algum. Mesmo tentando nós explicar. Mesmo cortando os lábios com os dentes para que o nosso sangue nos responda.
     Nunca seremos castanhos, esguios e frágeis da forma que aquelas árvores são. Seres de aceitação infinita sem poder de expressarem vontade.
     Tomamos com peso imenso qualquer pluma que se nos assente nos ombros. Vergamo-nos a par e passo ao estranho que a faz de fardo no lombo.
     No nosso reflexo há tons de cinza de pêlo.
Foi-nos envelhecido.
Vejo-nos como burros de carga que carregam simplesmente para não mais lhes ser marcado o lombo. Para que não lhes bata mais a vara que os obriga a andar. Há tons de cinza nesse reflexo porque nos comparamos ao jumento que não faz uso de inteligência por não a ter.
Negamos a carga que podia ter sido facilmente levada durante o nosso percurso. Negámo-la. Era demais para nós.
     Tu e eu, que ambos partilhamos agora duma perspectiva, aceitando-a ou não, repulsámo-nos antes de nos aceitarmos. Aceitámo-nos antes de nos negarmos. Usámo-nos e abusámo-nos do que era envolvente e ficámos estupefactos, no fim da linha, pelo tanto que perdemos ou ganhámos. Pelo que demos a perder ou a ganhar. Pelo peso que não quisemos carregar.
     E era pluma.
E era leve como o floco da neve.
     Tornou-se pesado como todos eles juntos.  


Tiago José Chaves
28/01/2013
14:42


domingo, 13 de janeiro de 2013

Cão


A luz arrasta-se.
     Ao meu lado passa tudo o que eu queria ver.
     Nada.
     Mesmo o gesto que faço está a ser fruto dum esforço desmedido. E esforço-me para quê, se deste desperdício de tinta e papel e tempo, nada nos ficará?
     Respirar torna-se cada vez mais insuportável à medida que entendo que nada há para perceber. Os olhos inundam-se de nada porque tudo se assume nulo para qualquer existência.
     As luzes arrastam-se.
     Enquanto sou puxado, olho para o interior teu, que tanto me havia preenchido. Mas o tempo insiste em consumir-me, fazendo-me aperceber do quão vazio esse era.
     Escrevo sobre esse lugar que me assumiste. Que nunca ninguém te tiraria que não tu mesma. E tiraste-te.
     Tiraste-te e apercebeste-te e orgulhaste-te e ignoraste-me e expulsaste-me e negaste-me. E eu, cão indefeso, que dava de mim o que não tive nunca para dar e nem um farrapo para me cobrir me foi dado, permaneço imóvel na esperança de te ver de novo. Na esperança de poder ser cão de novo.
     Por ti sou cão.  
     Por ti, trinco o chão.
     Por ti, nada é vão.
     E lembro-me de luzes que se arrastaram. E de sombras.
     Lembro-me de um perfume.
     Lembro-me de um toque.
     Lembro-me do gosto da saliva tua na minha boca.
     Lembro-me do amargo dos meus lábios quando se desencontravam dos teus.
     Lembro-me desse aperto que foi ver a luz arrastar-se e desvanecer-se.
     Lembro-me de ti, sem me querer esquecer de como és.
     Esqueço-me de mim, lembrando-me ser quem nunca fomos.
     E esta caneta que se arrastou em esforço, que me contraiu cada músculo, segreda-me de remédios que não curam.
     E eu creio neles.
     Mas ainda há luz.


Tiago José Chaves
13/01/2013
22:12

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Quase



Quase me habituo.
     Quase me tapa e me esconde a nuvem que paira neste ar pesado e insuportável que vou suportando à medida que em mim se me acomoda a ideia de que tudo vem e vai com um propósito que significa ou que se torna insignificante.
     Quase o sal me não deixa corromper o sabor da pele e saliva que nos envolveu quando nada mais era relevante que o que se toca e deixa tocar por ambas as mãos carregadas de imundice que arrastamos connosco como que um fardo que ninguém mais poderá carregar por nós e que tornaram tão pesado e imensurável.
     Quase me adapto à tua ausente presença.
     Quase te reconheço como te conhecia e pensei nunca vir a conhecer.
     Quase nego a ridicularidade da imensidão de sentimentos que me foram despertados e que teimo em de novo adormecer com todas as forças que em mim se reúnem.
     Quase é vão.
     Quase atinge onde queria que atingisse.
     Quase os meus olhos vêm e percebem a luz ao nosso redor, mesmo envoltos pela sombra negra que nunca se ausentou.
     Quase acreditei.
     Quase fomos.
     Quase me esqueci.


Tiago José Chaves
08/01/2013
15:54

domingo, 6 de janeiro de 2013

Inevitável


É inevitável.
     Enquanto cá estivermos, como somos, será sempre inevitável.
     Mesmo que as pálpebras neguem a luz aos olhos, escurecendo qualquer forma que se assuma, haverá sempre uma espécie de silhueta uniforme perfeitamente perceptível.
     É inevitável.
     Se formos como somos, será sempre inevitável.
     Mesmo que a língua se recolha por detrás dos dentes e a saliva a envolva naquele espaço humedecido e quente, cada sabor vai-se fazer sentir pelos ecos das memórias que me foram dadas. Sem pedido.
     É inevitável.
     Enquanto assim formos, será sempre inevitável.
     Mesmo que as mãos se recolham nos bolsos do que me guarda e protege e o não faz, elas vão perceber e tocar e querer sempre um pouco mais. E os punhos serrar-se-ão.
     É inevitável.
     Se formos assim, será sempre inevitável.
     Mesmo que o ar que me entra pelas narinas me queira fazer tropeçar na presença de um odor familiar e aprazível como o que me persegue e me insiste, os meus pulmões vão-se manter repletos desse ar, aumentando a sua adição.
     É inevitável.
     Enquanto o formos, será sempre inevitável.
     Mesmo que os reflexos do som da pulsação que me mantem se queiram silenciar, esse som longínquo ecoará em mim, fazendo o meu acompanhar o teu.
     És inevitável.
     Mesmo que não sejas, ser-me-ás eternamente inevitável.
     Mesmo que os meus cinco pontos extremos animalescos te recusem, mesmo que te repulsem com tudo o que têm, mesmo que se fechem e se empestem e se afoguem e se queimem e se ensurdeçam e se ceguem, mesmo que os negues com tudo de ti, mesmo que a sanidade se me finde… mesmo que o tempo conte ao contrário… mesmo que o calor me arrefeça… mesmo que a água não me mate a sede…
     Enquanto fores inevitável, sempre mo serás.


Tiago José Chaves
07/01/2013
03:10