domingo, 6 de janeiro de 2013

Inevitável


É inevitável.
     Enquanto cá estivermos, como somos, será sempre inevitável.
     Mesmo que as pálpebras neguem a luz aos olhos, escurecendo qualquer forma que se assuma, haverá sempre uma espécie de silhueta uniforme perfeitamente perceptível.
     É inevitável.
     Se formos como somos, será sempre inevitável.
     Mesmo que a língua se recolha por detrás dos dentes e a saliva a envolva naquele espaço humedecido e quente, cada sabor vai-se fazer sentir pelos ecos das memórias que me foram dadas. Sem pedido.
     É inevitável.
     Enquanto assim formos, será sempre inevitável.
     Mesmo que as mãos se recolham nos bolsos do que me guarda e protege e o não faz, elas vão perceber e tocar e querer sempre um pouco mais. E os punhos serrar-se-ão.
     É inevitável.
     Se formos assim, será sempre inevitável.
     Mesmo que o ar que me entra pelas narinas me queira fazer tropeçar na presença de um odor familiar e aprazível como o que me persegue e me insiste, os meus pulmões vão-se manter repletos desse ar, aumentando a sua adição.
     É inevitável.
     Enquanto o formos, será sempre inevitável.
     Mesmo que os reflexos do som da pulsação que me mantem se queiram silenciar, esse som longínquo ecoará em mim, fazendo o meu acompanhar o teu.
     És inevitável.
     Mesmo que não sejas, ser-me-ás eternamente inevitável.
     Mesmo que os meus cinco pontos extremos animalescos te recusem, mesmo que te repulsem com tudo o que têm, mesmo que se fechem e se empestem e se afoguem e se queimem e se ensurdeçam e se ceguem, mesmo que os negues com tudo de ti, mesmo que a sanidade se me finde… mesmo que o tempo conte ao contrário… mesmo que o calor me arrefeça… mesmo que a água não me mate a sede…
     Enquanto fores inevitável, sempre mo serás.


Tiago José Chaves
07/01/2013
03:10
     

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