domingo, 13 de janeiro de 2013

Cão


A luz arrasta-se.
     Ao meu lado passa tudo o que eu queria ver.
     Nada.
     Mesmo o gesto que faço está a ser fruto dum esforço desmedido. E esforço-me para quê, se deste desperdício de tinta e papel e tempo, nada nos ficará?
     Respirar torna-se cada vez mais insuportável à medida que entendo que nada há para perceber. Os olhos inundam-se de nada porque tudo se assume nulo para qualquer existência.
     As luzes arrastam-se.
     Enquanto sou puxado, olho para o interior teu, que tanto me havia preenchido. Mas o tempo insiste em consumir-me, fazendo-me aperceber do quão vazio esse era.
     Escrevo sobre esse lugar que me assumiste. Que nunca ninguém te tiraria que não tu mesma. E tiraste-te.
     Tiraste-te e apercebeste-te e orgulhaste-te e ignoraste-me e expulsaste-me e negaste-me. E eu, cão indefeso, que dava de mim o que não tive nunca para dar e nem um farrapo para me cobrir me foi dado, permaneço imóvel na esperança de te ver de novo. Na esperança de poder ser cão de novo.
     Por ti sou cão.  
     Por ti, trinco o chão.
     Por ti, nada é vão.
     E lembro-me de luzes que se arrastaram. E de sombras.
     Lembro-me de um perfume.
     Lembro-me de um toque.
     Lembro-me do gosto da saliva tua na minha boca.
     Lembro-me do amargo dos meus lábios quando se desencontravam dos teus.
     Lembro-me desse aperto que foi ver a luz arrastar-se e desvanecer-se.
     Lembro-me de ti, sem me querer esquecer de como és.
     Esqueço-me de mim, lembrando-me ser quem nunca fomos.
     E esta caneta que se arrastou em esforço, que me contraiu cada músculo, segreda-me de remédios que não curam.
     E eu creio neles.
     Mas ainda há luz.


Tiago José Chaves
13/01/2013
22:12

1 comentário:

  1. "Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso."
    (Antoine De Saint-Exupery)

    Enquanto houver uma réstia de luz, as memórias, essas permanecem inalteraveis, por mais que o tempo faça tic tac, por mais que esforces, por mais que o destino te leve em frente... 1.10.10

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