Saberemos
nós, em circunstância alguma, que o frio que as envolve é aceite? Será que
alguma vez a árvore se quis sacudir? Será até que a neve que as cobre as queria
cobrir? Será que, apenas porque se não pronunciam, estas duas formas, filhas do
céu e da terra que nos parecem aceitar, concordam com o seu encontro?
Foi
fruto do acaso. Nem um nem outro previram. Como o poderiam ter feito? Sem sinal
algum que nos possa ser dado à racionalidade, como poderão a árvore e a neve
aceitar-se ou negar-se? Como posso considerar sequer tal questão?
Sei
porquê.
Agrada-me
a maneira como usamos metáforas para justificarmos o encontro entre o todo e o
Homem. Adoro suposições com comparações para o alcance do cerne de questões,
quando tudo isso não é mais que fruto de acasos.
E
nós? Qual a nossa atitude perante tais acontecimentos? Como agimos e reagimos
ao estranho?
Tamanhas
ambiguidades nos consomem. A repulsa antes da aceitação. Ou a aceitação antes
da repulsa. Cada uma em consequência da outra, que se fazem completar sem
sentido rigorosamente algum. Mesmo tentando nós explicar. Mesmo cortando os
lábios com os dentes para que o nosso sangue nos responda.
Nunca
seremos castanhos, esguios e frágeis da forma que aquelas árvores são. Seres de
aceitação infinita sem poder de expressarem vontade.
Tomamos
com peso imenso qualquer pluma que se nos assente nos ombros. Vergamo-nos a par
e passo ao estranho que a faz de fardo no lombo.
No
nosso reflexo há tons de cinza de pêlo.
Vejo-nos como
burros de carga que carregam simplesmente para não mais lhes ser marcado o
lombo. Para que não lhes bata mais a vara que os obriga a andar. Há tons de
cinza nesse reflexo porque nos comparamos ao jumento que não faz uso de
inteligência por não a ter.
Negamos a
carga que podia ter sido facilmente levada durante o nosso percurso. Negámo-la.
Era demais para nós.
Tu
e eu, que ambos partilhamos agora duma perspectiva, aceitando-a ou não, repulsámo-nos
antes de nos aceitarmos. Aceitámo-nos antes de nos negarmos. Usámo-nos e
abusámo-nos do que era envolvente e ficámos estupefactos, no fim da linha, pelo
tanto que perdemos ou ganhámos. Pelo que demos a perder ou a ganhar. Pelo peso
que não quisemos carregar.
E
era pluma.
E era leve
como o floco da neve.
Tornou-se
pesado como todos eles juntos.
Tiago José Chaves
28/01/2013
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