domingo, 10 de fevereiro de 2013

Falso

     Enquanto as respirações se encontraram e tudo ao redor se assumiu certo, nada nos fez parar. Porque nada nos queria parar. Porque por meros momentos, que pareceram eternos, fomos certos.
     Veio fogo, que nos deixou acender a chama. De novo. E as brasas que nos aqueceram noite dentro quase queimaram. Ficaram somente as cinzas para contar o começo da nossa história. Essas cinzas que outrora nos foram essenciais à vida, que nos deram oxigénio. Como as nossas respirações, que julguei que, enquanto unas, seriam oxigénio. Seriam sustento.
     Pisei de novo o chão. Há nele um tapete belo e confortável, limpo. Pisei-o, incansavelmente porque senti falta de o recordar nos meus pés. Porque me era sempre base onde podia manter-me de pé, sentar-me, deitar-me. Podia usá-lo, conforme me apetecesse.
     Pisei-o, sem olhar devidamente para ele. Sem procurar saber se era realmente firme.
     Da mesma forma que me despreocupei de conhecê-lo, de saber se podia ou não ter pulado em cima dele, ele não procurou saber se me magoaria ao fazê-lo.
     Desabámos juntos, numa completa confusão de pedaços de tecidos rasgados e corpos entrelaçados na loucura que nos deu o chão.
     Fomos falsos como plástico, que se derrete e se consome a si próprio, à mínima chama que o encontre.
     Todas as cinzas que foram brasas que nos aqueceram e que foram o ar que respirámos, deixaram ao nosso critério a falta de sentido que ganharam. Despropositámos-lhes a existência e o fim. Nem demos sequer propósito ao que poderia vir a tê-lo.
     As nossas respirações encontraram-se e deixaram-se partilhar do ar quente e do fumo que nos testaram.
     Respirámo-nos e respirar-nos-íamos de novo, sem pestanejar.  
     O falso dá-nos sangue.
     O plástico derrete-se como nós, um pelo outro.
     Consumimo-nos.
     E as nossas respirações encontram-se.
     Enganam-se.

Tiago José Chaves
09/02/2013
21:12

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