quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Son(h)o


     E sento-me.
     Repouso o corpo pesado e pouso o pensamento que me calca e me vinca a pele e as entranhas. Cambaleio no meu cansaço para um repouso que há já muito que me não encontrava porque dele me escapei. Deixei que a fadiga se apoderasse de mim e deturpasse cada informação adicional que me fosse dada ao receptáculo.
     Deito-me.
     Descanso.
     Tenho sono.
     O sono tem-me.
     E teima em não me deixar. Tanto que me incomoda e não mais quero dormir. Assusta-me demais. Parecia querer apoderar-se do tempo que partilhamos e que ele tão bem manipula. Que me deixa sentir quedas vertiginosas, que me mostra monstros que neguei, que me abranda quando tento fugir, que me foge quando o tento agarrar e me faz ser agarrado por sombras que conheço, por nelas me ter deixado perecer.
     Doce sonho, que me sois tão familiar, que me sois tão velho e respeitado, que deteis poder absoluto porque a minha mente possuís! Que me forçais dirigir-me a vós com formalidades e cordialidades porque sois agro e doces e me ajudais, libertais e deteis, no tempo, no espaço e em mim.
     Sois difícil de verbalizar. Sois tanto. Sois pai e mãe, irmão e irmã, sois tio e tia, primo e prima, sois avós, como a nós não enganais, que sois eu próprio.
     As correntes e cadeados com que me prendestes, que me deixaram marcas nos pulsos e nos pés, as chicotadas que me destes e deram, as cuspidelas que me molharam o rosto e os olhares de esguelha que me negaram: fostes tu.
     Sempre tu.
     Sempre eu.
     Sonho, porque me agarraste? Porque desviaste o sono e negaste o descanso ao cansaço que a minha pele carrega? Porque me não abafas de vez e me fazes filho da terra de novo? Porque me atormentas? Porque queres imundo ser como eu? De que te valho?
     Deixa-me dormir.


Tiago José Chaves
21/02/2013
00:17

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