segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Semelanças"

  
     Adormecido.
     Como qualquer outro ser que se deixa levar para o incógnito do sono.
     De um sonho.
     De muitos outros sonhos lavados com água e sabão, à pressa, sem saber porque é que a pressa assim de nós se apodera.
     Instala-se a correria e a correr marcamos o andamento da luz que se mostra e se esconde uma vez de cada vez.
     Parece uma corrida.
     E corremos como doidos e com doidos, quase de mãos dadas, como se tivéssemos todos um mesmo propósito e como se a pele e a carne que nos reveste fosse finalmente pretexto suficiente para que simplesmente soubéssemos como deixaríamos ficar a nossa pele com outra pele.
     Peles frias, húmidas, gretadas, pálidas, sujas de um encardido que a ninguém incomoda.
     Peles em mãos que se dão com um toque leve umas às outras, com medo de se tocarem ou de serem vistas quando se tocam.
     Mãos abertas, apalpando no ar o ponto ideal onde se possam agarrar. Um vazio tão palpável quanto qualquer berma de qualquer coisa que lhe aparecesse. Uma qualquer saliência.
     Assente com os pés, meios desalinhados, meios forçados a sustentarem um peso qualquer, que se balanceia de um lado para o outro, sem saber bem se é para um ou para outro.
     Assim nos vejo, sem ordem, sem distâncias medidas nem alturas caídas, sem suporte para os pés nem pés que nos suportem.  
     Sem força de mãos ou força que preste.
     Sem berma quieta ou quietude que o seja.
     Sem que peles se toquem.
     Sem que toques em mim.
     Sem pés numa corda.
     Sem corda.
     Para cada berma, sua vertigem.
     Para cada vertigem, nada semelhante.
    


Tiago José Chaves
08/10/2013
00:25

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