terça-feira, 11 de junho de 2013

Trono



     Sei que estava errado. Por nem haver sequer erro. Porque estava certo da incerteza da sensação.
     Senti a dureza do olhar que me amoleceu, mudando a essência rugosa e impenetrável que mostrei e mostro a quem não permito presença no meu império desmoronado.
     Nem nele permito que toquem, aquando a inexistente visita.
     Mas deixei-te entrar.
     Escancarei-te a porta diante o rosto, deixei-te ver a minha essência que sei que não negarás, até não mais aceitares.
     Deixei-te, pedra por pedra, reconstruir o império que deixei ao desleixo por saber que no trono, quem se sentaria eras tu.
     Tu, ou alguém como tu, a quem nem sequer calculo existência.
     Imensamente tu, que não sei quem és nem quem foste, conhecendo-te como os palmos das minhas mãos.
     Estou certo da minha certeza, no certo erro do que isto é.
     Porque sei que se te não sentares, aí, nesse trono que te aponto, onde te bandejo por completo o meu inteiro, o império não faz sentido. O império tem destino à ruína. Uma que visitarei sem nunca sair dela, cerrando por dentro os portões que barram o exterior.
     Nego a luz e o luar, o vento e a sombra de tudo, para mergulhar de novo de onde talvez nunca deveria ter saído.
     Porque se não sentir sequer, de novo, a tua face na minha, o teu cheiro em mim, os teus olhos nos meus, melindrosamente, ou como quer que seja, negar-me-ei por completo.
     Deambularei pelo mundo com meros retratos do que imaginei ser. Do que continuo a não ser.
     Por te não teres sentado.


Tiago José Chaves
10/06/2013
21:54

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