domingo, 7 de julho de 2013

Página

Julguei-te livre.
     Como água que flui no rio, ou peixe na água que deixa passar qualquer atrito, não prestando mínima atenção.
     Julguei-te um salto.
     Alto, sem começo nem fim. Apenas a sensação de que a gravidade puxa para baixo e nem sequer permite pensar no seu término.
     Julguei-te papel.
     Ligeiramente amarrotado, com vincos acertados, rabiscados, manchados, onde não negavas repouso da tinta arrastada por dedos calejados.
     Julguei-te.
     E agora que me molho, que me mergulho ao teu encontro, a corrente torna-se densa. Abranda-me.
     Julguei-te.
     E enquanto corto o ar, enquanto me deixo puxar, vejo o chão.
     Julguei-te.
     E agora que sinto aquele sufoco por carregar as palavras em tinta, por me doerem os dedos calejados, mostras-me uma página repleta de histórias, preenchida por nomes com defeitos e feitios, de datas, perfeitas... E de desvios, aqueles em que tanto te empenhavas seguir.
     Julguei-te, porque sei julgar, porque sei começar sem acabar, porque sabia que iria perdurar. E deu para prolongar.
     E sei que não vai apagar.
     Porque nem por mim foi escrita.


Tiago José Chaves
08/07/2013

03:32

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