sábado, 13 de julho de 2013

Permissões desnecessárias

erPermitam-me que desça bem baixo.
     Que me iguale a vós. Que me nivele, fisicamente, a vós.
     Permitam-me, sem que me seja concedida autorização, usar termos que vos ressoam e que negais, por vos pressionar a concordância de que os mesmos não se enquadram num padrão de alguém civilizado, digno de aceno subtil com a cabeça ao passar numa rua, ou de um aperto de mão firme como se ali ficasse marcado um mútuo respeito.
     Concedo-vos uma qualificação, subtil, como vós: sinuosos.
     Tenho-vos como um percurso de curvas e contracurvas, de precipícios infindáveis que nunca suscitam a queda, por ser temeroso o seu final.
     Por isso, por uma infinidade de outras razões, vos vejo como seres repugnantes.
     Passo a explicar, que vos é algo tão normal, tão relativamente acessível, que não requer qualquer tipo de privacidade. Não careceis de manto algum que vos cubra os dentes, a língua, a saliva, para vos deixar apreciar o sustento.
     Contudo, negais serviços à vossa imunda fossa, à vossa poça de esterco, literalmente, quando vos sentais na loiça com formato apropriado para receber um dos resultados do vosso sustento.   
     Aí, cobris-vos.
     Aí não há quem vos suporte, quem aprecie a beleza duma forte secreção anal que empesta o ar e afugenta qualquer decente.
     Sois assim tão belos quanto vos descreveis?
     Outra faceta vossa que me encanta enojadamente: o vosso acto reprodutivo.
     Tão singelo, com partilhas de toques e cheiros, de fluidos corporais que são tão naturais quanto a vossa intenção.
     Deriva de amor, que por sua vez vem da convencionalmente negada atracção, que por si só não existiria, não fossem vós intrinsecamente animalescos.
     Digam-me, sem repúdia, quantos foram os desejados? A quantos vos apeteceu conhecer o interior, aquele por debaixo da roupagem, a simples mecânica humana que nem se pode detalhar para que os olhos dos outros se não semi-cerrem quando vos encaram?
     Contem-me se vos não apeteceu nunca pegar num desses seres aparentemente intocáveis e fazer dele vosso objecto, para vos satisfazer, sem limites, sem coberturas que vos separem do que é chamado de imundo. Contem-me a quantos não vos apeteceu, por apetite mesmo, penetrar ou ser penetrado, sem preocupação mínima de que houvesse reciprocidade no acto. A quantos não vos apeteceu simplesmente usar para vosso proveito e largar no instante da sacia?
     Deixem-se de formalidades.
     Sejam bárbaros como sois abafados.
     Sintam inveja e aproveitem-se dela, sintam-se uma espécie de animal e desnudem-se de conceitos de respeito evidentemente ultrapassados e sem qualquer contexto.
     Vós não sois, em nada, intrinsecamente respeitosos ou algo que se assemelhe.
     Vós em nada sois prestáveis que não para sacia sem preocupação com mutualidades.
     Deixem-se de tretas e joguem baixo porque sois assim.
     Sou-vos sincero.
     Porque sei como vós.


Tiago José Chaves
13/07/2013

15:51

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