Um
cansaço repentino invade a minha quietude.
Sinto
frio e ligeira mas dolorosa dormência em cada músculo meu. E toco-me,
incrédulo, como há muito me não era possível fazer.
Sinto
o meu corpo, finalmente.
Tudo
permanece como deixei. Mas parece tudo fora do lugar. Parece tudo
descoordenado, dessintonizado, desigual, confuso.
Não
me questiono mais. Levanto-me.
Dirijo-me
ao local de onde a casca sai pura, limpa e aceitável. E torno a minha pura,
limpa e aceitável.
Ainda
a cambalear na dormência física que me fora ligeiramente aquecida pelo líquido
abundante, relevante, mas menosprezado, tapo a casca com panos com feitios,
cheios de simetrias e assimetrias em perfeita concordância, fazendo com que ao
olhar não se tornem indiferentes.
Estou
pronto.
Estou
aceso como vós todos, luzes diurnas.
Alinho-me
na ordem pré-feita para que não seja destacado do comum e me alertem e punam.
Da linha não saio e dou sinais de que me desloco e que irei, ordeira e regradamente,
encaminhar-me para o meu local de ascensão vital.
E
chego lá. Atempadamente, como bom cão que sou. E aguardo que me olhem de
esguelha, que nem vadio a passar. Embora de vadio só queira ter a mente. Mas
não posso. Tenho ordem em mim.
O
tempo está ainda mal desperto em mim e já me pressionei para o não questionar
ou me impor. Esse que usa e abusa de mim. Esse que quando esqueço me apraz e
quando lembro me encolhe e enruga.
No
miolo deste imundo sítio abano o topo da minha casca e rasgo em mim um sorriso
amarelo à abundância de cascas polidas que por mim passam, sem se aperceberem
da irrelevância que me assumem. E sorrisos amarelos tenho eu de volta.
De
novo, a perfeita sintonia.
Dou
de mim, arranco de mim e dos outros, para me dar e te dar. E olho e oiço e
rabisco para poder continuar a de mim dar e a arrancar e a lhes dar e te dar.
Somos
de uns para outros. Para uns mais seremos que para outros. De uns mais
tiraremos e a outros mais daremos. Em proporção errada de escolhas erradas que
nos tornam um constante erro. E se lhes não dermos, se de nós não arrancarmos,
se de vós e deles não tirarmos, eles vão salivar, famintos, impacientes.
Dá-lhes esse naco de carne de papel. Aprá-los.
Chegou
ao fim.
Retorno
por onde vim. Ordeiramente.
Recolho-me
e retiro os panos balançados e simétricos e belos. Dispo a noção de casca que
vesti durante a dormência.
Encolho-me.
Dos medos. De tudo isto.
Cubro-me.
Aguardo.
Tiago José Chaves
14/11/2012
14:15
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