sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Manto


Os traços.
     São esses que teimam em não me abandonar o pensamento.
     A linha.
     Essa doce forma que percorre o teu ser, continuamente, numa sinfonia de simetrias de curvas irregulares que te desenham e que nunca a luz quererá abandonar, por mais que a sombra se ache tua por direito.
     E muito foi tua a ausência de luz quando te deixaste cobrir pelo manto negro de mágoa e dor que te deram sem pedido teu.
     Grotescos seres aqueles que o não souberam queimar quando to viram usar e possuir e fazer cair, nesse abismo de terra, humedecida pelas correntes que por lá passaram para que o fogo não pudesse pegar no que te cobriu.
     Diz-me: porque não te deixas cobrir de novo?
     A escuridão que nos aqueceu foi ausência de luzes diferentes. De semelhança infinita. E nessa dor julguei eu ver o que nos une. E na sombra julguei eu ter visto luz. E na tua sombra julguei eu ter sido o pavio que ardia incansavelmente, sem nunca aguardar por sopro que me terminasse.
     E aqueces-me.
     És fogo.
     Que me aquece, com medo de me queimar. E eu de ser queimado. Ainda mais que o que já fui. E fui. Acredita. Porque eu preciso.
     Preciso que acredites.
     Preciso que me tires e te tires do manto.
     Preciso que os queimes.
     Preciso que com o mesmo fogo que os queimaste, me aqueças a mim e a ti.
     Preciso que me queimes.



Tiago José Chaves
27/11/2012
19:56

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