segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

De olhos postos


     Nunca olhei devidamente para nada. Talvez porque nada tivera olhado devidamente para mim.
     Nunca olhei para cima. Nem nunca quis ver para baixo, tal o medo do voo e da queda que via repetirem-se na constante inquietação do meu pensamento.
     Mas voei. E caí.
     E tornaria a voar, mesmo sabendo que iria cair de novo. Porque me sei erguer. Porque me ensinei a fazê-lo.
     Memórias.
     Essas que teimam sê-lo.
     Essas que se unem ao sentimento como um elo da corrente que nunca me quis largar. Mas nunca me senti acorrentado. Nem nunca vi a corrente. E ela mesmo diante de mim, a agarrar-me e eu sem me deixar ir, com medo de cair. E a queda tanto eu queria para mim.
     Mesmo ensanguentado, mesmo ferido e me vindo sangue que nem meu era, ergui-me. Mesmo chorando e as lágrimas não me saberem às minhas, soube sorrir. Mesmo sofrendo e a dor não ter sido minha, soube voar.
     E vou saber olhar para cima.
     E vou saber olhar para baixo.
     E vou saber se fui olhado devidamente.
     E vou saber olhar.


Tiago José Chaves
27/11/2012
19:03

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