Nem este líquido salgado que me percorre o rosto
reconhece a minha dor. Nem sequer a minha dor reconhece o meu esforço. Talvez o
meu esforço também seja incapaz de reconhecer algo de humanamente correcto e
saudável em mim.
Sinto-me cada vez mais perto da base inferior.
Sinto-me cada vez mais pesado com o fulgor deste turbilhão de sentimentos em
mim. Nem sei se posso chamar “sentir” a tudo isto que me envolve, visto já não
conseguir sequer distinguir cada acontecimento.
Por mais que lave o meu rosto, por mais que esfregue
as mãos uma na outra, a lama que envolveu o meu corpo torna-se cada vez mais
densa. Tudo o que de imundo existe encontra-se em mim. Sou não mais que uma
poça lamacenta gerada por esse efeito que vós causais. Sou não mais que o fruto
repugnante das vossas palavras desmedidas e actos sem cálculo. Sou parte maior
e constante do vosso erro, que me aquece cada vez mais e me afoga neste mar de
sofrimento.
Comer deixou de fazer qualquer sentido. Trata-se
apenas de um mero factor de sobrevivência. Tudo o que ingiro foi fruto de
trabalho árduo vosso e da nossa Mãe. E ela que tanto nos dá, e nós que tanto
lhe tiramos. Temos tanto apreço por ela como por nós mesmos. E falais vós de
amor? E medis vós erros e calamidades e inteligência?
Ignorantes.
Não me vale de nada sofrer tanto quando os meus
cinco sentidos são perfurados pela vossa imunda sabedoria. Mas sofro, porque me
está entranhada.
Admirais-vos se vos digo que vos repugno? Exclamais,
de espanto, se vos digo que vos amo a todos por igual? Se me fazeis sofrer,
porque não poderei eu sentir por vós o tão valorizado, complicado e
incompreendido Amor?
Tudo que vos digo, tudo o que ouvem, tudo o que
cheiram, tudo o que apalpam, todos os sabores, todas as visões… Tudo o que
escrevo,é-vos assim tão indiferente?
Vós não me sois.
Tiago José Chaves
04/10/12
00:14
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