domingo, 28 de outubro de 2012

Doce



Será que vais lá estar enquanto eu esperar por ti?
     Será que vou conseguir seguir o caminho sem tu teres saído?
     Irei conseguir seguir, mesmo tendo tu já saído?
Esse sítio que te prende, que te põe rédeas à tua liberdade e sanidade, que te rouba a ti mesma e que te faz ser leviana quanto aos teus actos.
     Eu sempre aqui estive, desde o dia em que te conheci. Sempre estive certo, desde que te ouvi, desde que te pude contar como sou e como te vejo, desde que houve compreensão quanto à possibilidade daquilo que somos, que era de ti que eu fugia por saber que um dia me ias parar e colocar dentro de uma caixa de cartão perfurada, que nem cachorro abandonado, e que resistência eu não ofereceria, tal o agrado de ter sentir a tua mão leve tocar-me, empoeirado, imundo, constantemente, no corpo e resto.
     Tento controlar a respiração de cada vez que ouço passos na minha direcção, de cada vez que o ar se movimenta neste sítio morto, onde nem almas penadas se atrevem a entrar.
     Dentro de mim.
     Em mim.
     Dentro de ti.
     Em ti.
     Cada canto que preenche a minha cápsula de memórias e remorsos e sentimentos sentidos, alimentados pela cruel esperança de quem aguarda por algo ou alguém que é sabido nem sombra se vir, renasce. Em vão.
     Doces palavras. Doces cantos de lábios que me invadem o íntimo sem deixarem ponta restante onde me possa guiar para o lugar onde me deixei.
     Crueldade e frieza possuis para em tal forma me teres deixado.
     Bela.
     Pura.
     Inalcançável.
     Choro cada lágrima armazenada pelos cantos dos meus olhos por te ver e não estares aqui.
     Canto até que doa, para nada e ninguém, esperando que oiças.
     Alimento a minha sabedoria sem que saibas, para que um dia possas saber.
     Arrasto a caneta no papel para que leias e vejas e sintas e chores e rias e corras e grites e saltes e fujas e agarres e soltes e pares. Duma vez, que pares.
     Mas continua.
     Mas vê-me.
Mas ouve-me.
Mas aprende-me.
Mas lê-me.
Sente-me.
Chora-me.
Ri-me.
Corre-me.
Grita-me.
Salta-me.
Foge-me.
Agarra-me.
Solta-me.
Pára-me.

Tiago José Chaves
28/10/2012
2:00



                

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