segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sois

       Quem sou? Como sou? Porque sou? De quem sou? Quando o sou? Para que sou?
     Meras questões cujas respostas sei que são cada vez mais de uma subjectividade tão extrema como qualquer outra tentativa de resposta que se tente alcançar.
      A tudo o que estamos expostos, por tudo, isso que exerce em nós uma leveza de pressão incalculável, docemente nos empurrando para baixo e subjugando-nos e submetendo-nos a tudo e todos os outros, deixando-nos esculpir e polir sem fim,… somos quem somos. Sou quem conseguem ver. Sois quem sois. Sois quem vos vejo.
       Somos?                 
      Todo o resto não passa de um mero enfeite para que as atenções se foquem em vós, nem que seja por uns meros segundos, infinitamente longos. Todo o olhar que não vos consiga evitar submeteu-se a uma análise que tem tanto de longamente indiferente quanto de breve incómodo.
       E ainda assim olhas.
     Admira-me como sois capazes de habitar nessa constante submissão que é o olhar ligeiro de pessoas que atendem a uma categoria, uma posição, um estatuto, breve e certamente irrelevante a longo prazo para a vossa subsistência mental, tornando-se tanto quanto todos nós.
      Ainda assim, hierarquizais.
     Gostais de colocar nos diferentes degraus da longa escadaria que guia, a vós, todos os intervenientes no tempo que vos é cedido. Cães de guarda tendes, em todos e cada degrau dessa mesma honorável subida de nível, para que ninguém trespasse o limite que lhes diz respeito.
     Sois impenetráveis, inalcançáveis, imensuráveis, impensáveis.
     Sois foleiros.
     Julgais pura e única essa vossa noção de conquista que os outros devem igualmente possuir para quebrar a castidade encefálica que tanto prezais e, aquando o seu alcance, nada mais que um vazio é compreendido. Em vós.
     Acordo com conquistas por conquistar.
     Deito-me assim.
     A noção infindável de que não terei, assim como vós não tereis, algo realmente palpável. Mas vamos apalpando, por aí, conforme nos pudermos agachar e por quanto tempo os nossos olhos puderem cerrar-se a tudo isso que nos constitui.
     Sois tão perfeitos.


Tiago José Chaves
29/10/2012
14:35

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