segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Deixem-me...


Se pudesse, metia-me lá. Sem pestanejar.
     A superfície iluminada por essa fonte natural ofusca-me a visão, fragiliza-me, expõe-me. E eu não gosto de estar exposto. Gosto do escuro, do frio, de sentir que procuro calor e o não encontro. Gosto do limiar entre a sanidade e a loucura. Demasiado de um dos dois torna-se irrelevante para a minha existência e eu gosto de ser perturbado. Gosto que me perturbem.
     Não. Não gosto.
Deixem-me em paz! Não vos incomodei, porque mo fazeis? Aberrações! Seres repugnantes! Deixem-me!
     Não chega depender de vós, de convivência, de ajustes aqui e ali, de apertos de mão com tanto de respeito como de dúvida, de beijos em rostos que desconheço, de palavras trocadas sem vontade, de tudo isso que tanto necessitamos, e ainda me têm que incomodar mais? Sois assim tão estúpidos?
     Eu fervo por dentro com a vontade louca de vos suprimir completamente, de vos eliminar de qualquer canto onde apareçam! Vós criais em mim uma pressão inexplicável, que me deixa sem forma de me expressar, que me deixa sem ar para viver, que me deixa sem vontade de viver…
     Se ao me verem perturbado, depois de tanta explicação que vos tenho dado, depois de tanto de mim vos ter mostrado, ainda vindes ter comigo, como poderei eu estar bem? Como poderei eu respeitar os seres esculpidos e polidos que sois quando não respeitam o bruto que sou?
     SOU EU!
     …
     Deixem-me.

Tiago José Chaves
15/10/2012
23:28
                

                

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