sábado, 6 de outubro de 2012

Mosquitos


    Agarrados, constantemente, com um medo enorme da queda. A queda no buraco que vós próprios trataram de cavar.
     Inúteis. Não passam de um mero ser que vagueia no tempo e no espaço, sem saber bem quando e por onde passaram. Não sabem ao certo sequer se chegaram a vaguear.
     Completa-vos toda a faceta fácil, toda a página desdobrável e manejável. Completa-vos o que vos dão para comer, o que vos mandam ser, se é que sabem que “são”. Estou tão enojado com a vossa simplicidade!
     Vocês ecoam no meu encéfalo, como um mosquito de noite que teima em querer ferrar. De mim sugam o sangue que me corre nas veias e deixam marca para me coçar e fazer ferida, exposta a todo o tipo de malefícios que possam existir. É disso que se trata: deixarem em mim uma ferida exposta com um acto mínimo vosso. É do mínimo dos mínimos que me retirais que vos fartais.
     É do meu sangue doce que vocês fartam a vossa necessidade. É fartos que vós gostais de permanecer, noite e dia, sem término, num ciclo vicioso que me inclui cada vez mais.
Sou não mais que vós, sou tão mais que nada.
     Cavo o meu próprio buraco onde me escondo e perco noção de tempo, onde a luz não penetra, onde alimenta a minha loucura. Louco prefiro ser, a tornar-me cada vez mais um cão esfaimado como vós.
      Se assim é, porque não haveria de ser? Se me distingo como vocês tanto fazem a tudo e todos, quando muitas vezes sois indistinguíveis, há falha?
Há erro?                                    
Há loucura?
Há narcisismo?
     Há.
Somos tudo.
Não somos nada.  



Tiago José Chaves
07/10/12
01:48



2 comentários:

  1. A "Sweet Mary Rose" aconselhou-me a passar aqui porque disse que os teus textos eram "impecáveis". Bem, vim tirar teimas e gostei.Ela tem razão. Estou a seguir. Definitivamente!

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  2. Obrigado por teres lido. Espero que te tenha transmitido algo. Abraço ;)

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