Ele flui, o tempo. Não o entendo, mesmo que me digam que não passam de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Quando o recuo, tudo se baseia em memórias, imagens, sons. Ou apenas numa imensidão negra por onde é costume eu passar algum tempo.
É um negro que, por mais que me afaste, por mais que o não queira, quero-o, anseio entendê-lo, mesmo sabendo que é impossível. Fascina-me saber que é incontrolável, mesmo sendo eu dono de mim mesmo, querer constantemente procurar e tocar o inalcançável, o que cansa procurar, o que é suposto fazer-nos render, cruzar os braços e fechar os olhos a uma possibilidade. Uma pequena luz que se note num nevoeiro cerrado.
Nem me agrada sequer a ideia de o querer acelerar, porque não passam de desejos que se podem concretizar e me impedem de viver o presente. É duro, mas torná-lo mole, por mais amargo que seja o sabor enquanto se tenta, advém-se um resultado que é sempre duma doçura extrema e que nos faz lembrar do quão amargo já foi.
Não quero que a doçura permaneça. Ninguém o deveria querer. A doçura é monótona e a monotonia pode ser eterna, mesmo que o não seja fisicamente. Gosto do contraste de acontecimentos e gosto ter estado e ficar-me por um dos lados desse contraste, ter vários pontos de vista, saber que eles existem. Mas saber que se existe é pouco. Viver não consiste apenas em existir, nem consiste em nada em concreto.
O que me assusta realmente é o envelhecer. Ver que o tempo passou e o agarrei, mesmo que não tenha sido da melhor forma, porque faz parte. Vê-lo atrás e não o querer. Mas ainda assim, rir-me dele, chorar sobre ele, pensar sobre ele, leva-me também a pensar que não queria que nada passasse mais rápido nem mais devagar. Toda a perfeição está onde ela não existe, porque ela existe em todo o lado. A perfeição não é nada mais do que imperfeições em sintonia, a quererem-se umas às outras, como a secura quer água, como o escuro quer luz, como o amargo quer o doce. É um mero contraste, constante, no qual vivemos e se não existisse, não haveria vida ou existência. A satisfação de necessidades, por mais básicas que sejam, como o homem necessita da mulher e vice-versa, como tudo necessita do oposto para se complementar, eu preciso que o tempo passe, como ele quiser, para que no dia que o tempo para mim parar, eu saiba que ele já correu e já o quis fazer ser mais rápido ou mais lento, que o quis parar antes do momento certo. Mas simplesmente qui-lo. O tempo é tão íngreme como nada. É o nada. Nada avança como se quer. Nada recua por se querer. E o nada, esse tanto que há quem pense que é mínimo de tudo, é o expoente máximo da pretensão de todos nós.
Tiago José Chaves
terça-feira
08-03-11
04:41
Sem comentários:
Enviar um comentário